29

Feliz nosso dia

Faz dois anos que me obrigo a pensar que é só um exagero. Mas hoje, enquanto estava indo jantar com meu amigo o que o Restaurante Universitário oferecia para celebrar este dia específico, a ficha caiu. 

Hoje é o dia do preto, hein? Lá na minha cidade, em São Paulo, é feriado. Só aqui que não. 

Como a universidade organizou um cardápio especial, imaginei que, pelo menos, não consideravam uma data qualquer. Chegamos na fila para entrar. Dava para sentir o cheiro do calulu lá de fora.

Na verdade, você deve ser a única. – continuou, desta vez, em tom de piada. 

Meu colega, longe de me fazer rir, semeou uma pergunta na minha cabeça. Depois de alguns minutos, a refeição acabou. Estava na hora de sair. Conversa vai e conversa vem, meu amigo voltou para casa. Decidi ficar por ali e sentar no mesmo banquinho de sempre. Desta vez, não iria apenas aproveitar o tempo do intervalo em meio a uma aula. Queria reparar nos detalhes. Contar com quantos conseguia me identificar – ou não.

 Parecia que tinham sumido. Cadê os demais?

Observei os grupos grandes, mais de vinte pessoas, indo e vindo ao meu redor. Zero. Olhava também para alguns conhecidos, quem era da minha turma ou tinha sido meu professor nos semestres anteriores. Analisei aqueles que estavam parados, à espera do ônibus. Mais uma vez, zero. 

Ninguém parecido comigo estava entre eles. Que desespero. Será que sou a única mesmo? 

Um, dois… BINGO!

No meio da movimentação que caracteriza o horário das 18h, duas pessoas caminhavam na minha frente. Uma senhora, de uns 65 anos, carregando algumas sacolas de mercado. E um homem, mais jovem, de calça azul e camiseta branca, arrastando uma lixeira vazia e alguns outros utensílios de limpeza. Sequer se olham, não se conhecem. Apenas continuam seus caminhos e, na aglomeração de rostos pálidos, se desvanecem. 

Enquanto estava sentada, só vendo quem passava por lá, alguém se aproximou. Agora, na minha lista, eram três. Ele chegou mostrando seu expositor de colares. Reconheci o cabelo grisalho e a voz rouca que fala sem pressa.

Opa, boa tarde. Gostaria de dar uma olhada no meu trabalho?

Não era a primeira vez que ele me via naquele lugar, também não era a primeira vez que vinha conversar comigo. Por um momento até esqueci do dilema interno que estava enfrentando antes dele chegar. 

Obrigado, moça. E feliz nosso dia, né? 

É. A conta não bate.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.48

Victoria Alejandra

victoriaalejandrapradopacheco@gmail.com
23.2
28

ENREDADOS

No caminho para a universidade, me permito colocar meu fone e ir para outra realidade, acompanhada apenas de sons, melodias e pensamentos. Chego na aula e me sinto desatualizada, preciso checar o celular. Acidentalmente se foram 30 minutos. Uma mulher falava sem parar, talvez eu devesse dar mais atenção a ela, porém deslizar os dedos pela tela é muito mais sedutor, a delícia de não saber o que vem a seguir. Desastre climático, famosa traída ou bala perdida? desce mais um pouco…

Ergo o olhar, até que a professora está falando algo interessante. Ela fica feliz em ver minha atenção à sua fala, meu coração aperta. Olho ao redor e vejo pescoços curvados. Celulares e notebooks roubam a cena. (In)felizmente, sou daquelas que repara em tudo. Grupos e conversas de Whatsapp lideram as minhas observações nas telas alheias. Reels do Instagram aparecem em segundo lugar. Quando é vídeo de bichinho fofo, fico um pouco derretida, confesso. Mesmo assim, me questiono: por que estamos aqui se de fato não estamos? Na chamada, todos estão presentes.

Um dia os papéis se inverteram. É a minha vez de apresentar o trabalho que passei semanas produzindo, apurando, editando, surtando. A crítica alheia me causa medo, já sou ferrenha comigo mesma. Mas, neste caso, o julgamento ainda seria um bom sinal, um indício de atenção. A realidade é que ninguém deu a mínima para o que eu fiz. Me senti idiota, falando para o nada e argumentando com o silêncio. A professora incentivou o debate:

E ai pessoal, o que acharam? 

Nenhuma resposta. De repente, um som de risada alta atravessou o ar. Todos olharam para a dona da gargalhada, e ela olhava para o celular. Deve ter visto algo engraçado e não se controlou. Criou-se uma atmosfera de vergonha alheia. 

Compartilha com a gente, também queremos rir!! – provocou a professora.

A aluna de graduação soltou o celular e conteve o riso. As apresentações seguiram e eu pude voltar para a minha carteira. Em que momento deixamos essas coisinhas com luz azul dominarem nossas vidas? Será que eu realmente concordo com os termos de uso? Bom, agora já é tarde para moralismos. A jovem risonha também apresenta o seu trabalho. Eu não dou a mínima.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.46 (3)

Luana de Almeida Angelo

luanadealmeidaangelo@gmail.com
23.2
30

Domingo de sol

Existe um provérbio japonês que diz “Cultive quando fizer sol, leia quando chover”. Cansado da chuva e das quatro semanas preso aos livros, resolvi cultivar um pouco de vida. Nada melhor que um domingo de sol para semear novas lembranças. O dia ensolarado deixa as pessoas com um semblante mais animado e sorridente. Ao contrário do último final de semana, hoje o churrasquinho na frente do Terminal do Centro está a todo vapor. O cheiro de carne assada, típico de um domingo brasileiro, invade a avenida. É fumaça que não acaba mais. Mas nem só de churrasco vive um bom domingo. No camelódromo, dois trabalhadores lavam o telhado de uma das barracas. Pelo visto, as águas das últimas semanas não deram conta de eliminar a sujeira. Mas o mais provável mesmo é que eles queiram retirar o musgo. O aguaceiro foi tanto que já se via até o limo brotar sob as telhas.

Diferente do céu cinzento dos dias nublados, hoje quem veio passear no Centro deu vez às roupas coloridas. Cada peça se soma à explosão de cores dos murais de grafite nos prédios históricos. Três senhoras, caminhando em direção à ponte Hercílio Luz, são o exemplo de combinação perfeita. Resolveram apostar nas blusas florais. Se foi tudo combinado, eu não pude notar. Mas o fato é que as amigas usavam peças idênticas. Como se isso não bastasse, as três carregam bolsas pretas, revestidas por argolas de metal, presas sob o braço esquerdo. E o caminhar? Uma coreografia não ensaiada cheia de sintonia. O guarda-chuva, item que há semanas era o fator condicionante para sair de casa, sumiu do mapa. Quem deu as caras foram as casquinhas de sorvete. A recepcionista da lanchonete não para um segundo sequer. E o caldo de cana com pastel? A dupla queridinha finalmente retornou às ruas da cidade.

A paz do domingo vai chegando ao seu auge ao passo que se sobe a ladeira que leva até o Parque da Luz. Os prédios históricos ficam para trás e vem chegando a calmaria trazida pela brisa do mar, que contrasta com as risadas, apitos e a correria das crianças pelo gramado. Ali ao lado, na ponte, um grupo de dança do ventre se apresenta na cabeceira. Os turistas ainda aprendem a andar com os patinetes. E assim, já diante da luz do sol poente, cada uma daquelas pessoas cultiva novas, e talvez as melhores, lembranças do primeiro domingo ensolarado depois de quase um mês.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.48 (1)

Robson Ribeiro

ribeiro.robson.grad@gmail.com
23.2
27

Diário de uma universitária

 Naquela bendita subida que caracteriza a rua de casa, um sofá de três lugares era carregado por duas pessoas bem na minha frente. Enquanto eu levava o encosto dele na cabeça para facilitar a viagem, percebi que esse seria apenas um de tantos perrengues que estariam por vir durante a minha estadia em Florianópolis. Apesar disso, mesmo que não parecesse, era um dia feliz. 

Depois de um mês sentando no chão, na expectativa de tornar nosso novo cantinho mais confortável, eu e “as meninas” – como costumo chamar as duas amigas que tinham acabado de se mudar comigo – desconfiávamos cada vez mais daquela mulher que prometia ceder um sofá em perfeitas condições à primeira pessoa que entrasse em contato com ela. Os mesmos comentários se repetiam quase toda hora na casa 1, nossa residência: 

Te respondeu? 

Ela sumiu de novo. Será que já doou?

Que enrolação, só queria um lugar para sentar nessa sala. 

Era começo de abril, os bairros ao redor da UFSC estavam repletos de crianças brincando de ser adultos. Assim como a gente. E se todo mundo estava em busca de aluguéis mais em conta, supermercados com promoções e opções de brechós econômicos, quem iria desperdiçar um sofá novinho, de graça e sendo ofertado publicamente? Eu sei, nossas chances não eram muitas. Porém, numa quarta-feira, bem no dia do meu aniversário, chegou a mensagem:

O móvel ia ficar com meu Centro Acadêmico, e acabaram não buscando. Se vierem agora, o sofá é de vocês.

Já tínhamos pensado em tudo. O lugar onde ficaria perfeito. Que tipo de almofadas combinariam. Até me imaginei tirando um cochilo depois de um longo dia de aula. Só faltava um pequeno detalhe… como iríamos trazer aquilo? Olhamos o GPS em nossos celulares. A pé, eram exatos doze minutos de distância. 

Tão perto, mas tão longe.

E se pedirmos um frete?

Estou sem grana.

De uber?

Não vai caber.

Vai ter que ser no braço. 

A ida foi fácil. Talvez a volta também não fosse complicada, pensamos. Aí a porta do prédio abriu, interrompendo nosso pensamento esperançoso. Descobrimos que precisaríamos subir um andar. Mais um… Só mais um pouco. 

Terceiro piso de um bloco sem elevador. Que pesadelo. Depois de alguns minutos lutando contra as portas, degraus e o mascote daquela mulher – um cachorro salsicha que não parava de ameaçar morder nossas panturrilhas -, o esposo da moça se ofereceu para ajudar a terminar de descer o sofá. Mas só ajudou a descer, mesmo. O resto era por nossa conta. 

Se demoramos doze minutos indo, voltando foram no mínimo trinta. As pessoas na rua olhavam curiosas quando parávamos para descansar um pouco. Um casal de senhorinhos gargalhou quando nos viu passar tropicando em plena calçada. Mas, sim, conseguimos vencer a bendita subida que caracteriza a rua de casa. 

Valeu a pena tanto esforço, afinal, era um dia feliz. Nosso cantinho, antes vazio, ganhou um pouco mais de vida. Pude comer meu bolo de aniversário num lugar confortável. E, ao chegar, ainda nos deparamos com uma mensagem daquela mesma mulher que tanto demorava para nos responder uns dias atrás. 

Eu já fui estudante, já estive no lugar de vocês. Espero que aproveitem seu novo sofá

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.48

Victoria Alejandra

victoriaalejandrapradopacheco@gmail.com
23.2
26

Crochê, tricô e água benta

A pandemia já se encaminhava para o fim, o lockdown praticamente não existia, tudo havia voltado ao antigo normal, como se convencionou chamar nos telejornais, quando fui visitar meus avós. A casa estava do mesmo jeito de sempre, os vasos de plantas falsas no mesmo lugar, as fotos das netas quando crianças nos mesmos porta-retratos e a vasilha com balas de menta na mesinha de centro.  Tudo continuava igual, a não ser por uma sacola de papel com agulhas de tricô e linhas no canto da sala.

Perguntei à minha avó se ela havia começado a fazer tricô ou crochê, não fazia ideia da diferença. Ela me disse que crochetava há muito e deu uma leve resmungada ao notar meu desconhecimento sobre esse fato. Em minha defesa, devo dizer que ela nunca foi uma avó típica, do tipo que prepara almoços, bolos, costura ou demonstra muito afeto.  Eu, em resposta, retribuía com o mesmo comportamento. Seu jeito de nos cuidar  era oferecer um gole de água benta – benzida via novena do Divino Pai Eterno, às 10h, na TV – assim que nos sentávamos no sofá.  

Depois do meu gole tomado, ela retomou à minha pergunta e despertou para uma falação sem fim. “Na minha época de escola, as meninas tinham aulas de bordado, de etiqueta, crochê, tricô e tudo que uma mulher deveria saber fazer”. Ainda relembrou as aulas onde treinavam a postura, andando com livros sobre a cabeça. Talvez se eu tivesse essas aulas, não sofresse com escoliose. 

Olhei para as linhas coloridas mais um pouco e, tentando interromper o ciclo de histórias, tão antigas que até minha mãe duvidaria da veracidade, pedi quase em tom de apelo: Me ensina! Pela sua reação, creio que era tudo que ela estava esperando. Começamos pelo crochê – a técnica de uma só agulha pareceu a escolha ideal. Correntinha, ponto baixo, baixíssimo, alto, meio ponto alto e uma faixa totalmente irregular se formou. 

A didática de sala de aula com certeza se perdeu após anos longe do ofício de professora. O passo a passo que minha avó repetia sem parar me confundia tanto que desistimos. Passamos ao café com bolo, mas não sem antes ela me fazer prometer que levaria uma agulha e um novelo de lã para continuar os trabalhos em casa. Me comprometi a orgulhá-la como a neta prendada que sou, como ela mesma diz, já que as outras têm  pavor da cozinha e repulsa a trabalhos manuais.

Após alguns milhares de vídeos no YouTube, entendi como funcionava a mecânica dos pontos. Três horas completamente dedicadas ao crochê renderam o que poderia servir como uma mantinha para Barbies, se ainda brincasse com elas. Logo mais saiu uma touca minúscula, que talvez nem uma boneca pudesse usar. Tirei foto da criação, mandei para minha vó que, no mesmo instante, respondeu com elogios exagerados. 

Foi o incentivo que faltava. Nas semanas seguintes, comprei agulhas de diferentes numerações e lãs coloridas. Com uma receita para seguir e me mantendo fiel à promessa, em dois meses eu tinha um cardigan de quadradinhos. Um processo que minha avó acompanhou por meio de fotos e relatos por WhatsApp. Nossa troca de mensagens aumentou exponencialmente e os pequenos afetos se tornaram rotina da nossa relação. Quando o casaco, enfim, foi finalizado, levei-o para ela ver pessoalmente e tive certeza que ela não esperava tanta dedicação minha. Bom, o máximo que já fiz em crochê foram meias e polainas, ela me disse, após me oferecer um gole de água benta. Creio que foi um elogio.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47 (2)

Isadora Camello

isadoram.camello@gmail.com
23.2
25

Comunidade

Eu estava saindo da faculdade quando recebi uma notificação do grupo da família:

“(Mensagem encaminhada) Morreu há pouco a vizinha Maria. Vamos providenciar uma coroa de flores em nome do condomínio, que tristeza.”

Não entendi. Eu tenho uma vizinha chamada Maria? 

Tinha.

Pensei em esquecer o assunto, afinal, nem a conhecia. Mas fiquei incomodado. Como eu não sabia quem ela era, apesar de morar no mesmo prédio há quase seis anos? Pedi para meus pais enviarem uma foto, alguma descrição. Enquanto isso, eles encaminhavam mensagens de outros vizinhos, falando que a viam todos os dias na academia que eu frequento, outro dizendo que ela era uma ótima pessoa e que sempre ia pra área comum do prédio, onde fico diariamente. A cada mensagem, me sentia  mais frustrado. Só eu não conhecia minha vizinha?

Entrei no carro, coloquei o cinto e fui para casa, frustrado. No caminho, tentei imaginar Maria. Quantos anos ela tinha? Eu já a havia visto? Era alta, baixa, loira, ou morena? Tentei criar uma imagem mental dela, mas, mesmo dessa forma, não achava um rosto que eu conhecesse. Será que ela era aquela senhora que eu vi passeando com o cachorro? Ou outra que vi quando fui jogar o lixo fora?

Maria havia se tornado uma figura da minha imaginação. Ela tinha olhos claros, baixinha, com a pele um pouco marcada como quem frequentava muito a praia, mas não passava protetor. Morava sozinha no prédio, mas sempre frequentava os eventos do condomínio, quem sabe para preencher algum vazio ou porque ela era muito simpática. Sim, acho que já tinha visto essa moça. Em um dia que não me lembro, em um passado do qual não fiz parte. Ela era do meu pretérito mais que perfeito, morreu antes de eu  conhecê-la. 

Cheguei no portão de casa e acenei para o porteiro sem tirar meus olhos do celular, lendo as mensagens que meus pais enviaram enquanto eu estava no caminho. Eles continuavam explicando quem era Maria, descrevendo como aconteceu a morte e como os vizinhos estavam tristes com a perda. Eu também estava, mas pela morte em si, não pela perda de um alguém. Ou talvez pela perda da vizinha que criei na minha mente.

Pedi o elevador. Quando as portas abriram, já tinha alguém ali dentro. Disse bom dia, enquanto lia as mensagens no grupo da família. Uma delas era uma foto de Maria. Enquanto era feito o download da imagem, minha mente tentava adaptar o rosto da minha vizinha mental a algo mais parecido com aquele borrão. A porta do elevador abriu e a foto carregou. Não a reconheci. Fiquei tão chocado que sequer me despedi do vizinho que estava comigo no elevador. Eu não sei o nome dele.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47 (3)

Victor Lebarbenchon

victorblbr@gmail.com
23.2
24

Carne de panela

Era domingo, dia de bater o ponto na casa da minha avó para o almoço de família. A senhora de 73 anos estava preparando a carne cozida do jeito que só ela consegue fazer — colocou a carne congelada em uma panela de pressão com água, temperou, tampou e acendeu a boca do fogão. Não me preocupei. No fim, contra toda a lógica, fica uma delícia. 

Enquanto ela cozinhava, eu e meu irmão jogávamos cartas na mesa oval da cozinha. Quando ganhei mais uma partida, ele deixou transparecer a dor de cotovelo:

— Sorte no jogo, azar no amor. 

Foi a deixa que minha avó precisava. Assim que notei onde a conversa ia parar, levantei o olhar para o meu irmão. Desde que eu era pequena, ela sempre começa a história do mesmo jeito, pela metade: 

 

— Eu estava na janela quando ele chegou, montado num cavalo branco — antes de jogar outra carta, meu irmão fez alguma piada sobre o homem ter sido um príncipe encantado. A senhora deu risada — Ele bateu na porta e pediu pro meu pai a permissão pro casório. 

A afirmativa veio rápido.  Minha avó não conta, mas, nos anos 60, seu pai não via a hora de ter uma boca a menos para alimentar. Com 19 anos, ela se casou com um homem de 23, mudou de cidade e deixou tudo o que conhecia para trás. Tudo, menos seu marido, claro.

— A gente ia para onde tinha trabalho. Era triste porque eu não conhecia ninguém e era muito tímida. Mas logo fiz amizade com a filha do dono de uma fazenda. Ela era mais nova que eu, a gente brincava o dia inteiro.

O bom humor da senhora escondia as partes ruins da história. Fui entendendo as sombras da ambiguidade enquanto crescia: o homem com quem casou não era fiel, bebia demais, nunca estava em casa. Até hoje a cidade o conhece pela sua fama. Se você citar o apelido “Zezão” para qualquer morador na faixa da terceira idade, eles vão ter ao menos uma história para contar. 

Minha avó, no entanto, sempre conta a mesma. Começa no cavalo branco e segue com seu marido em um pano de fundo. De príncipe, ele passa a ser um acessório. 

— A gente já estava na cidade quando seu tio nasceu. Depois de dar à luz eu voltei para casa. Sua mãe e tia tinham derrubado o armário da cozinha inteirinho! As louças todas quebradas, tudo porque elas queriam pegar uma cesta de doce que eu deixei no alto. Criança é o trem mesmo, viu! 

Ela passou por dois partos assim: indo para o hospital sozinha quando sentia contrações e voltando a pé no dia seguinte. Quando comentamos o absurdo dessa situação, ela respondeu:

— Ué, mas era normal na minha época. E eu não voltava sozinha, voltava com um filho nos braços. 

Um deles, o terceiro de cinco, a gente não cita e ela nunca conta. Seu marido não estava em casa e ela já sentia dor demais para conseguir andar. Vivia em uma região onde existia um espaço de ao menos 500 metros entre uma casa e outra, era quase impossível pedir socorro aos gritos. O menino nasceu morrendo sufocado. 

Me pergunto se foi por isso que ela começou a ir até o hospital sozinha nos partos seguintes. Me pergunto, mas nunca pergunto para ela. A história não é sobre isso. 

— O Zezão entrou nos bombeiros e aprontava um monte. Mas depois que o seu tio, Marcos, nasceu, a gente já estava assentado na cidade. Ficou tudo bem. 

A história sempre mantém a mesma essência. A senhora não passa pano, mas também não condena. Narra o enredo com a mesma passividade com a qual o viveu. Às vezes, me dá raiva de ouvir. O final sempre soa feliz na voz tranquila, mas deixa um gosto agridoce na minha boca. Gosto que queria empurrar para baixo enquanto engolia o almoço. 

— Mas aí veio o AVC — meu irmão disse, apertando os lábios. — E ele precisou sossegar. 

A raiva se dissipou devagar. Me lembrei de quem tocava violão e cantava em todas as festas de família, quem escolheu meu nome e carregou meu irmão nos ombros durante toda a infância. Lembrei de quem está acamado hoje, incapaz de andar sem uma cadeira de rodas e alguém disposto a empurrá-la. Lembrei do meu avô.

— Precisou, mas não sossegou não, viu? Foi entender o recado só depois de três — a senhora suspirou, resignada — Mas ficou tudo bem. Olha só para vocês, tenho tanto orgulho.

Ela desligou o fogão e perdi a partida. Pouco tempo depois, o resto da família chegou. Tios, tias, primas e mãe. Do grupo de 16 pessoas, o que não faltou foi alguém para levantar meu avô da cama e empurrar a cadeira de rodas até a mesa, para o seu lugar na cabeceira, onde um prato o espera todos os dias, no mesmo horário. 

Me perguntei se ele estaria almoçando conosco se ainda conseguisse andar, mas logo afastei os pensamentos. Sabia que, independente de onde meu avô estivesse, minha avó estaria ali, preparando o almoço. 

Ela colocaria o pedaço de carne congelado na panela, um pouco de água, tempero e a tamparia. Ligaria o fogo, nos contaria a mesma história e, por mais que o esperasse, não questionaria onde está o meu avô. Assim como nós, ela também saberia a resposta. 

Ele não estaria ali.

 

WhatsApp Image 2025-07-24 at 21.54.53

Juliana Carvalho

julianacarvalhojc251@gmail.com
23.2
23

Cacarejo

A cada dois meses lembro de checar a caixa de correio. Com tudo direto no e-mail, já até sei o que vou encontrar lá dentro. Um panfleto de alguma nova loja das redondezas, os boletos do condomínio e um cartão de visitas de um certo marido de aluguel. Mas dessa vez tem novidade: uma carta, ou melhor, uma folha sulfite branca dobrada em quatro com uma mensagem impressa. 

Ao que parece, uma moradora do meu condomínio não estava conseguindo descansar por causa do cacarejo de um galo da casa vizinha e resolveu mandar um apelo a todos os moradores do prédio para que denunciassem o animal. A carta continha nome completo da dona do galo e de seu filho, endereço e CEP da residência e, claro, o número do Ibama e da polícia para a denúncia. A moradora implorava:

Por favor, vizinhos, se todos cooperarem com a denúncia é mais provável que tomem alguma medida. Já liguei inúmeras vezes e nada se resolve. Conto com vocês.  

A reclamação tem fundamento, o animal tem hábitos peculiares, bem diferentes de um galo de fazenda – apesar de nem a ciência estar em consenso sobre o porquê destes animais cantarem. Em dias quentes, o cacarejo começa cedo, lá pelas 6h30 e intercala o silêncio com seu canto até às 11h. Durante a tarde é quando está mais ativo, acompanha o café da tarde quase como se reivindicasse um pedacinho de bolo de milho. Já nos dias de chuva, parece que o galo deixa de existir, além de não ouvi-lo, também não é possível vê-lo da varanda. 

Assim como a vizinha, logo que me mudei desejei inúmeras vezes que o galo sumisse. Imaginei um frango assado ou uma boa canja nos dias mais frios do inverno. Mas acontece que o galo é tratado como se fosse de estimação pela senhora que mora naquela casa, no centro do bairro Trindade. E se a polícia ou os ambientalistas chegarem a averiguar a situação provavelmente vão se deparar com uma mulher idosa apegada ao seu pet.

São tantos os outros barulhos da rua principal do bairro que o canto de galo traz um pouco de bucolismo para o dia a dia. As buzinas, freios impacientes, discussões de trânsito, latido de cães e até a máquina de lavar ligada de meu próprio apartamento são mais aborrecedores que os sons daquele animal nem um pouco adaptado à cidade. O fato é que sua companhia se tornou tão rotineira que o encaro como uma trilha sonora nada usual. 

Li pela terceira vez a mensagem da vizinha incomodada, amassei o papel e joguei fora. Há alguns meses atrás não pensaria duas vezes antes de fazer a denúncia, mas agora sua presença sonora traz conforto e compõe o que chamo de lar. Pode ser que daqui a um tempo minha vizinha também entenda esse sentimento.

 

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47 (2)

Isadora Camello

isadoram.camello@gmail.com
23.2
22

Bolsinha de moedas

Depois de uma semana inteira, notei que a cada dia uma nova colega de turma surgia com uma bolsa do tamanho de um celular para carregar o troco do lanche na hora do recreio. Era um movimento de moda aparecendo no colégio regido por freiras, onde não eram permitidos shorts curtos, calças jeans e muito menos algum calçado que não fosse tênis. Mas claro que não poderíamos reclamar, usar as unhas pintadas era permitido, ao menos na escola – em casa, apenas renda ou francesinha. 

Com o crescimento do clube de meninas usando bolsas na transversal do corpo como acessório pouco útil, notei que estava por fora. Já não era considerada popular, então senti que precisava do acessório, ou, ao menos, me enturmar. Tomei coragem e disse ao meu pai, sem maiores explicações, na saída da escola: 

– Eu preciso de uma bolsa para levar as moedas e notas de dois reais para comprar meu lanche da tarde. 

Um pedido desesperado que já anunciava a impaciência, teimosia e vaidade que ficariam evidentes na adolescência. De carro, nos encaminhamos ao shopping. Rodamos por várias lojas, mas aquelas bolsinhas minúsculas, especificamente aquelas com o chaveiro de macaquinho que as outras meninas tinham, custavam um valor totalmente desproporcional ao seu tamanho e qualidade. Ah, estar na moda aos 12 anos já era caro. 

Segui levando na mão, até o caixa da cantina, o dinheiro trocado, e, no coração, a certeza de que era amada. Sem bolsa ou carteira, o punhado de moedas nas minhas mãos era a lembrança do dia em que meu pai largou todos seus planos para atender meu pedido. Nenhuma demonstração de afeto, carinho, beijos e abraços vindos dos meus pais superou o sentimento que o gesto me proporcionou. 

Até aquela idade, aquele momento, o amor era uma abstração – sabia que devia amar meus pais, minha irmã e até aquelas parentes vistos uma vez ao ano -, mas a subjetividade do amor me fazia crer que dizer “eu te amo” era a única forma de descobrir se era amada, ou que amar era mais uma obrigação como escovar os dentes ou tomar banho. Era o tipo de coisa ensinada pelos pais que deve ser feita.

Dias depois, em meio a cadernos, canecas, itens de papelaria e uma enorme variedade de mochilas e bolsas, pude experimentar e escolher a minha companheira no caminho até a lanchonete durante o ano letivo, uma bolsa do tamanho da palma da mão, preta com florzinhas rosas e laranjas, que custou o que de fato valia. Lembro de agradecer meus pais pela bolsa, mas nunca contei o que a compra significou para mim. 

Mesmo desgastada depois de muito uso, me apeguei à aquele pedaço de amor palpável. Dez anos depois, me deparei com ela perdida dentro de um saco com meus bichinhos de pelúcia favoritos.  Tê-la nas mãos foi como ser transportada de volta para quando ganhei essa bolsinha. Com as costuras desfeitas, ela perdeu sua utilidade e beleza, mas sobrou como prova do dia em que me dei conta do que é amar, ser amada e demonstrar amor.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.22.47 (2)

Isadora Camello

isadoram.camello@gmail.com
23.2
21

Bilhete premiado

— Ganhamos na loteria! 

Ouço os gritos da minha mãe lá do portão, acompanhados pelo som metálico das cadeiras de praia se chocando. O barulho era uma ruptura em um verão sem muito o que contar. O mar parecia que, naquele janeiro, tinha um vai e vem mais lento, o vizinho com música alta havia se mudado, o sol não ardia tanto e os salva-vidas pouco trabalharam. 

Foi então que ouvi os latidos cansados de uma cachorrinha. Os pelos emaranhados, talvez, em algum momento, foram brancos; com olhos lacrimejantes e tristes, ela apareceu nos braços da minha mãe. Enquanto providenciava água e comida, ela contava para o meu pai que a cachorrinha certamente tinha pedigree e que filhotes assim chegavam a custar até 4.500 reais. Ela foi apelidada de Belinha, na tentativa de acertar o seu nome real.

A verdade é que, apesar da inicial intenção da minha mãe de ficar com ela caso ninguém aparecesse, Belinha estava agonizante. Ela mal comia, apesar de sua clara desnutrição, passava o tempo choramingando sem forças e tinha uma cara tão triste que não combinava com aquele ambiente de férias. Fiz o que qualquer pessoa faria: pesquisei na internet sobre como fazer um cachorro feliz. Encontrei um tópico sobre passeios, peguei a coleira do meu outro cachorro e saímos para caminhar. Após apenas cinco minutos de caminhada, ela começou a ficar mais lenta. Com oito minutos, estava ofegante. Aos 10, simplesmente parou e, depois de 15 minutos, deitou no chão com as pernas trêmulas, espasmos e o corpo completamente fraco, um claro sinal de exaustão. Saí com uma cachorra triste e retornei com ela ainda mais triste e, agora, debilitada.

Na esquina da minha casa, um homem com a barriga à mostra por baixo da camiseta e segurando um cigarro me perguntou se a cachorrinha era minha. “Não, minha mãe a encontrou na praia,” respondi. Foi então que ele me contou sobre a vizinha, dona da cachorrinha, que estava desesperada, e que eu poderia levá-la de volta para ela. Ele se ofereceu para me indicar o caminho.

Quatro esquinas à frente, e eu estava diante de uma casa térrea, com um teto baixo e paredes pintadas de azul. Na área, havia cerca de cinco pessoas. Assim que apareci no portão com Belinha no colo, a cachorrinha, agora menos exausta, abanou o rabo. “É ele! É o Thor! Você o encontrou!”, elas gritaram.

Ele? Após algumas perguntas sobre como o encontrei, elas me contaram que haviam chegado antes da virada do ano, mas o cachorro não estava acostumado a andar de carro. Quando desceram do veículo, ele saiu correndo desesperadamente, e, desde então, não conseguiram mais encontrá-lo. Enquanto ouvia o relato, uma mulher de cabelos loiros pintados, presos em um coque desgrenhado, e vestindo um roupão rosa, com um esforço evidente em cada movimento, apareceu apoiada em outras duas mulheres. Elas trouxeram Rose, a mãe do Thor. Rose chorava, falava lentamente e deixava frases sem conclusão. Neste ponto, eu já estava achando que a história bonitinha estava se tornando um pouco dramática. Já dentro da casa deles, comecei a pensar que talvez fosse uma estratégia para atrair vítimas para o tráfico de órgãos. Foi então que o marido de Rose, o mais calmo naquela situação, se aproximou de mim e disse:

— Ela está dopada de calmantes, fazia dias que ela só chorava e não dormia. Não sabia mais o que fazer. 

Falei três frases genéricas de consolação. Ele continuou: 

— Ela o vê como um filho. O sonho da vida dela era ter filhos. Quando descobriu que não poderia engravidar, eu dei esse cachorrinho para ela. É por isso que ela está assim.

O verão continuou, ainda com os sons metálicos das cadeiras de praia, mas sem nenhum novo grito de empolgação. Acredito que, de fato, alguém tenha ganhado na Loteria, mas não foi a minha mãe.

WhatsApp Image 2025-07-24 at 18.17.01

Laura Böger

lauraboger69@gmail.com
23.2