Primeira impressão

Primeira impressão

 Sempre ouvi que Nova York não dorme. 

No primeiro dia, achei a cidade terrivelmente barulhenta. As luzes da Times Square combinadas com as buzinas no trânsito, a risada das pessoas, os cliques e flashes de câmeras, a rapidez com que os moradores andam, a pressa com a qual todos convivem. Não entendi o que tinha de bom naquilo tudo.

No segundo dia, caminhei pelo Central Park, vi que ali as pessoas se acalmam, andam devagar, conversam tranquilas, olham ao redor. Vi famílias, casais, todas as raças e etnias do mundo, cada uma em seu piquenique.

No terceiro, peguei o barco para a Estátua da Liberdade, passei nas pontes, vi a vida normal do Brooklyn, subi no Empire State, fui no museu da imigração. Entendi a história, a força das pessoas que construíram a cidade.

No quarto dia, caminhei pela Broadway até chegar em Wall Street. No distrito comercial, vi os homens que trabalham e controlam o dinheiro do mundo todo, que decidem sem pensar no passado, que olham para o futuro como o único lugar onde querem estar. À noite, desci para um dos porões do Jazz, ouvi a música acelerada se tornar aos poucos uma melodia calma, com os trompetes e saxofones entrando em harmonia conforme o uísque descia pela minha garganta.

Vi, no quinto dia, tomar forma uma manifestação pelos direitos civis, contra a brutalidade da polícia, a favor do povo palestino, contra a eleição de Donald Trump. Vi o metrô se encher de cores quando a torcida do New York Knicks entrou, pegando a linha que levava ao Madison Square Garden para as finais da NBA. 

Vi José, o mexicano que trabalhava na conveniência na esquina do meu hotel, fazendo as mesmas pizzas sempre. Sorrindo para mim com o mesmo sorriso, do dia em que cheguei ao dia em que saí.

No oitavo dia, subi ao topo do maior edifício comercial do centro da cidade. Vendo a vista, as milhares de janelas com luzes acesas nos prédios, senti a vida pulsar na cidade como nunca senti antes em lugar algum. 

No avião, no silêncio de uma madrugada sem fuso-horário, comecei a pensar em mim. Me vi nas ruas, no trabalho, no parque, no jazz, na noite, nos bares, no metrô.

Tentei lembrar do que havia me irritado na primeira impressão que tive, mas não consegui. 

Sempre ouvi que Nova York não dorme. 

Pensando bem, realmente não tem por que dormir.

Foto Nova York
Foto da cidade de Nova York - Foto: Victor Hugo Viegas
Victor Hugo Viegas

Victor Hugo Viegas

viegas.vhs@gmail.com
26.1
Bolsas de viagem

Bolsas de viagem

Estava sentada numa cadeira branca, dessas com o braço fino demais para apoiar o antebraço ou o cotovelo de maneira confortável, por isso, permaneço com as mãos unidas entre as pernas. O ambiente tem luzes brancas e fortes, as quais não estou acostumada, e um cheiro limpo, talvez de soro fisiológico. Todas as cores que vejo ao meu redor são frias e sem graça. Azuis muito neutros, cinzas chatos, brancos sem vida.

À minha frente, minha irmã acaba de sair da sala com seu marido, ambos meio distraídos, meio não ligando para a falta de vida do lugar, meio cumprindo tabela, meio querendo ir embora. Quando restamos apenas nós duas no quarto, decido observar a senhora que já foi cheia de vida, mas hoje sequer se lembra da própria história.

Apesar da falta de proximidade com ela, quase perto de zero, começo a refletir enquanto a observo. Ela parece tão calma, tão serena. Não dorme, encara o teto com um leve sorriso no rosto e um olhar tranquilo. Imagino o que está pensando. Será que conseguiu resgatar alguma memória no fundo de sua mente?

A verdade é que meus pais sempre me botaram medo sobre a tal velhice. Que dependemos de outras pessoas. Que não pensamos por conta própria. Que nem lembramos dos momentos mais felizes de nossas vidas. Durante um tempo, isso me incomodou. Quando eu tinha por volta dos 7 ou 8 anos, quando via alguém de idade isso me ocorria. Depois de um tempo eu esqueci desse problema, nem um pouco grande naquela época.

Até me sentar na frente daquela senhora a qual mal conhecia, mas que me sentia tão compadecida como se fosse minha própria mãe. Ela estava num asilo de idosos após seus três primeiros filhos se recusarem a cuidar dela, pois dava “trabalho demais”, e o quarto filho, meu cunhado, ter recorrido àquele lugar com muita relutância após se endividar ao tentar bancar os remédios.

Começo pensando o que ela sentia ao ver os filhos que criou se recusando a cuidá-la. Depois lembro: muitas vezes, ela nem os reconhecia. Se sentia mal? Ou ao acordar, não sentia nada? Seria como recomeçar a vida todos os dias? Ou seria como se sentir aprisionada, com algo bem no fundo do inconsciente tentando te levar de volta ao passado, às coisas simples, à lógica do dia a dia, às memórias e lembranças dos momentos mais felizes e tristes, os mais marcantes?

Por um tempo, falei para meus amigos e familiares que preferia morrer jovem enquanto ainda “funcional e independente” a passar anos deitada, presa por remédios intermináveis e uma mente confusa. Hoje, olhando para aquela senhora tão doce, não sei se ainda penso o mesmo. Sua bolsa de viagem, cheia de memórias, ainda continuava com ela.

Sou arrancada de meus pensamentos profundos quando minha irmã volta ao quarto, me chamando para ir embora. Ela estranha eu ter ficado ali com sua sogra, pois fui apenas para acompanhá-la. Antes de sair, ainda no batente da porta, olho novamente aquela figura tão frágil, mas tão forte. Tão doce e, talvez, não tão perdida. Ela me olha de volta. Sinto um abismo entre nós, apesar de vê-la bem ali. 

Por um instante, penso que a velhice nunca tenha sido o esquecimento. Talvez seja apenas o momento no qual a bolsa de viagem fica pesada demais para ser carregada sozinha. As lembranças continuam todas lá, mas já não encontram o caminho de volta até a boca. Ao sair do quarto, entendi que o que mais assusta não é perder as memórias. É olhar para alguém que passou uma vida inteira enchendo essa bolsa e perceber que o mundo, por não conseguir mais abri-la, insiste em dizer que ela está vazia. Acho que a bolsa de viagens daquela senhora ainda estava inteira, e bem cheia. Talvez ela tenha só perdido o zíper.

Samara

Samarah Susie

samarahsz.oliveira@gmail.com
26.1
Despedida

Despedida

Faltam três meses para o casamento da minha irmã mais velha. 

O lugar, lista de convidados, vestido, maquiagem, vai estar muito frio?, site dos presentes, pessoas com dificuldades para entender o site dos presentes. Tudo parece ir bem, mas uma coisa não sai da minha cabeça. Ela vai embora e não vamos mais morar juntas.

De certa forma, já estou familiarizada com a despedida e com a distância. Tenho duas outras irmãs que vivem longe, em Minas Gerais. Na última terça, liguei para uma delas e tivemos uma ótima conversa. Desliguei e senti o coração apertar… lembrei como eu a amo.

A partir do dia 16 de agosto, terei meu próprio quarto (ideias do Pinterest vêm aí) e atenção redobrada da mamãe. Minha bagunça organizada não será um problema. Com o passar dos dias tão acelerados e cheios, a ausência dela no lar será aceitável, despercebida, até virar normal. Certamente ao ouvir sua banda favorita ou tomar sorvete pensarei nela, porém não com aquele sentimento que dói.

Mas aí, quando ela for almoçar em casa num domingo, me provocando como de costume, reclamando que o marido deixou a toalha na cama de novo e querendo dar ordens — como todo bom irmão mais velho faz —, vou sentir o peso de sua ausência. 

O que causa a saudade em mim nunca é a falta. É a presença.

Deborah

Deborah Caetano

dcocaetano@gmail.com
26.1
Fotos (2)

Plantão 24h

Ser estudante de jornalismo é uma experiência curiosa. A pessoa entra na faculdade acreditando que vai investigar grandes escândalos ou entrevistar pessoas importantes, mas, sem perceber, se torna a Alexa da família. Só que sem botão de desligar.

Na primeira semana de aula, tudo vira comemoração. Surgem perguntas sobre as matérias, os professores ou comentários que qualquer dia vão te ver na televisão.

 Mas o encanto dura pouco. 

— Vai chover amanhã?

— A previsão é de frio?

— É verdade que a temperatura vai cair para vinte graus?

A resposta é simples. Olha o aplicativo do clima, fala alguma coisa sobre frente fria e segue a vida.

Só que esse é o início do fim.

Porque basta UMA resposta certa para as pessoas concluírem que você sabe absolutamente tudo. Quando percebe, foi promovida ao plantão permanente de informações.

Esses dias, meu tio mandou um áudio de quatro minutos  no grupo da família dizendo que tinha visto “num site muito confiável” que um meteoro passaria perto da Terra e talvez derrubasse a internet mundial.

Em menos de dois minutos meu celular já vibrava.

— Isso é verdade?

— Tem perigo?

Alguns familiares riam da situação. Outros acreditaram imediatamente.

— Se não é verdade, por que o Wi-Fi aqui de casa caiu?

— Gente, isso é fake news.

 — Claro que eles vão dizer que é mentira. Se fosse verdade, não iam divulgar.

— Tio, aquele “cientista da NASA” foi gerado por inteligência artificial.

 — Mas você tem certeza?

 — Tenho.

— É claro que tem. Ela é jornalista.

Ainda estou no quinto semestre da faculdade. Mas, pelo visto, isso é só um detalhe.

Tamiris

Tamiris Flores

florestamiris020@gmail.com
26.1
massas

Promessa compartilhada

Em Santo Amaro da Imperatriz, o arremate de massas transforma promessas individuais em tradição coletiva

“Vinte reais, quem dá mais?”. Um homem levantava a massa em formato de um órgão humano acima da cabeça como se estivesse segurando um troféu. 

As vozes vinham de todos os cantos do salão. Perto da porta, alguém deu um lance. Ao lado da janela, outro fez o mesmo. Entre sorrisos e risadas, alguém gritava “vinte e cinco” antes mesmo de o leiloeiro, um homem de aproximadamente 40 anos, vestido com uma camisa de moletom cinza, terminar a contagem. 

Eram oito da noite, em Santo Amaro da Imperatriz, cidade com cerca de 27 mil habitantes, a 40 km ao sul de Florianópolis. Naquela quarta-feira, 13 de maio, cerca de 150 moradores reuniram-se no salão de festas da Paróquia São Francisco de Assis. O cenário, porém, era uma exceção à tradição. As novenas do Divino costumam acontecer nas casas dos moradores, reunindo a comunidade em salas e garagens. Desta vez, a celebração foi transferida para um local maior, para acomodar mais pessoas. 

A mesa de madeira ocupava o centro do salão. Simples, comprida, coberta por uma toalha de cor clara. Sobre ela, dezenas de massas lado a lado. Pães trançados, figuras humanas, pés, braços e corações anatômicos moldados à mão. Símbolos do agradecimento pelas graças alcançadas. 

“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três”. Rapidamente outro pacote já atravessava o salão nos braços de um homem que tentava estimular novos lances. Mulheres entre 70 e 80 anos caminhavam devagar ao redor da mesa, observando os pães com atenção. Algumas conversavam baixinho entre si, outras apenas acompanhavam com olhar atento. Alguém gritou “cinquenta”, com um sorriso de orelha a orelha, enquanto cumprimentava um conhecido. “Vendida”. 

Entre os presentes, crianças correndo do lado de fora e jovens de moletom, encostados perto da porta. Os idosos se vestiam como quem ia para um evento social: camisa, sapato engraxado e casacos pesados, apesar do calor dentro do salão. Muitas mulheres carregavam travessas cobertas por pano de prato e estavam com cabelos cuidadosamente arrumados. Alguns homens mantinham as mãos cruzadas atrás das costas, enquanto observavam o movimento. 

O perfume forte das senhoras e o da comida que seria servida após o leilão misturavam-se ao cheiro das massas recém-assadas. Todas estavam embaladas em saco transparente, fechado com etiquetas vermelhas onde se lia o nome dos festeiros. De longe, pareciam produtos comuns em uma vitrine de padaria. Mas não eram. 

Naquela noite, durante o leilão, foram arrecadados R$ 15,9 mil. A quantia seria somada ao valor obtido nas demais novenas realizadas em outros bairros e comunidades da cidade e destinada às melhorias das igrejas locais. 

Duas semanas depois daquele encontro, a cidade voltaria a se reunir para a Festa do Divino, realizada na Igreja Matriz. A celebração começa na sexta-feira que antecede o domingo de Pentecostes, uma das datas mais importantes do calendário litúrgico, e termina na segunda-feira. Entre os moradores, a crença é de que deve-se vestir roupas novas para a ocasião. No último dia da Festa do Divino, a cidade vive um feriado municipal.

Em 2026, 41 casais da pequena cidade carregaram a bandeira do Divino para a casa dos moradores, levando bênçãos para os lares, e abriram as portas de suas próprias casas para receber a comunidade católica e rezar. Foram 63 novenas, iniciadas no domingo de Páscoa. A tradição de origem açoriana chegou a Santo Amaro há mais de 70 anos. Ali, quase todo mundo conhece alguém que já recebeu a bandeira, organizou uma novena ou preparou uma massa para o leilão. 

Tradição 

A comunidade presente no salão da paróquia já sabia, portanto, o roteiro. Na última semana, os moradores tinham participado de até três novenas por dia. O ritual era sempre o mesmo. 

Durante 40 minutos, a devoção tomou conta do salão paroquial. Os festeiros Gilsineia de Souza e Tarcísio de Souza foram os anfitriões. As vozes acompanhavam as orações em sintonia. Pai-nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai, Vinde Espírito Santo. 

Quase ninguém estava sozinho. Famílias inteiras ocupavam o salão e o pátio. Após a reza, o Terno de Reis se apresentou, enquanto a bandeira vermelha do Divino Espírito Santo era erguida diante dos moradores. 

Foi quando o padre olhou para os fiéis e sorriu:

— Agora chegou a hora do leilão de massas, né?

Todos se levantaram, puxaram cadeiras e procuraram conhecidos, atravessando o salão para abraçar alguém que não viam há semanas. 

“Trinta real. Trinta real. Quem dá mais?”

As palavras saíam rápidas, arrastadas pelo sotaque típico de uma cidade pequena. O leiloeiro ria, enquanto batia de leve na embalagem da massa em formato de coração antes de entregá-la ao comprador. 

Ao lado dele, um homem mais jovem equilibrava outra massa em formato de pão trançado nos braços. O rosto estava vermelho, por causa do movimento entre as pessoas. 

“Cinquenta. Cinquenta reais”. 

Uma mulher levantou a mão. 

“Cem”.

 “Vendida”. 

Sobre a mesa, ainda havia um pé a ser leiloado. Norma dos Passos diz que a filha mandou fazê-lo. O pai enfrentava problemas havia meses. A promessa veio durante uma oração do Divino Espírito Santo. Se ele melhorasse, a família entregaria uma massa no formato da parte do corpo machucada. Deu certo. “Às vezes fazem braço, perna, fazem até um boneco inteiro. Quando a pessoa melhora, é uma forma de agradecer”. 

Na cozinha, uma mulher de touca branca ajudava a terminar o jantar que seria servido logo mais. Enquanto organizava os pratos apressadamente, me contou que também havia doado uma massa naquela noite. “Pedi a graça pelos meus três filhos”. 

Ela interrompeu o que fazia para procurar uma foto no celular. Na tela, três bonecos moldados em massa, com braços, pernas e olhos feitos com bagas de feijão. Aquela era sua forma de agradecer pela saúde dos meninos. 

Ano após ano, cada formato carrega uma história que, muitas vezes, só a própria família conhece. Ainda assim, no momento do leilão, as promessas – e as graças alcançadas – deixam de ser individuais. Passam de mão em mão, atravessam a sala, são disputadas em voz alta e divididas entre a comunidade. 

Eram dez da noite quando as pessoas começaram a deixar o local. Logo mais haverá outra novena, todos sabem e deixam isso claro durante a despedida. O ciclo do divino marca o tempo de quem mora em Santo Amaro da Imperatriz.

*Reportagem produzida em maio de 2026

Camilli

Camili Machado

camilimachado.jornalismo@gmail.com
26.1
Fotos (1)

Tiros na saída

Uma pessoa morreu, mas como era um criminoso, então estava tudo bem. Era um tiroteio em frente à escola, mas como o bairro era perigoso, então não havia surpresa. 

No finalzinho da manhã, após o barulho estridente do sinal de saída, eu e os demais alunos ficamos presos dentro das salas de aula. A confusão chegava a ser palpável. Uma menina do meu lado chorava, desesperada. Já outro colega tratava como contratempo inoportuno.

– O que está acontecendo? – perguntei.

– Tiroteio. Tão atirando dentro da escola. 

– Quem?

– Ninguém sabe.

Momentos depois, todos fomos liberados. O que aconteceu foi um confronto entre a polícia e possíveis traficantes, um deles, como forma de escapar, pulou o muro do colégio e os policiais foram atrás. As pessoas contavam como se fosse algo trivial.

Peguei o ônibus em frente à escola, aliviada por sair viva. Não era a primeira vez que a violência atravessava aqueles portões, mas nunca passou pela minha cabeça que ia presenciar esse cenário. Não imaginei que as pichações de CV – Comando Vermelho, nas casas ao redor fossem algo mais que duas letras nas paredes.

Até pensei que a direção fosse cancelar as aulas do turno da tarde, mas não. Afinal, uma pessoa morreu, mas como era um criminoso, então estava tudo bem. Era um tiroteio em frente à escola, mas como o bairro era perigoso, então não havia surpresa. 

Eliza

Eliza Freire

elizafreirejor@gmail.com
26.1
Fotos

Copo pesado

Todo encontro entre três jovens mulheres regado a bebida barata chega, uma hora ou outra, ao tópico inevitável: sexo.

– O maior pau que eu já vi. Juro pra vocês, era enorme. – contava minha amiga Alice, no auge dos 20, sobre sua última transa.

– E o daquele cara foi o menor que eu já vi. – digo.

– Mas o tamanho nem importa tanto se pensar que eles não conseguem fazer a gente gozar só com penetração. – Sara argumenta, fazendo um sinal para que eu pegue o copo de sua mão, antes que ele caia.

– Isso é. Mas o dele era tão grande que eu quase cheguei lá. – Alice rebate.

– E como é? – pergunta Sara.

– Como é o quê? – questiono.

– Chegar lá.

Silêncio.

– Amiga, mas você… nunca?

– Nunca. Não chego lá sozinha.

– Ah.

Silêncio.

– E se você comprar um vibrador?

– Já pensei nisso, mas precisaria ser adaptado, porque eu não tenho força no braço pra alcançar.

– Mas não existe nenhum modelo adaptado pra PCD?

– Não que eu saiba.

– Mas como que ninguém nunca pensou em fazer um troço desses?

– Pois é. Aí eu acabo sempre dependendo de outra pessoa, o que não tá fácil de arrumar também.

– Tá. E se usar alguma coisa comprida e amarrar o vibrador na ponta? Tipo uma colher de pau, sei lá.

– Eu pensei uma vez em fazer um adaptado, mas sozinha eu também não consigo, dependo muito da mãe pra essas coisas. Como que você vai chegar na sua mãe e falar “mãe, me ajuda aqui rapidinho a prender esse vibrador nessa colher de pau pra eu conseguir gozar sozinha?”. Não rola, né? A gente tem intimidade, mas nem tanto. Pode pegar o copo aqui? Tá ficando pesado de novo.

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Raissa Hübner

raissahubnerr@gmail.com
26.1
Fotos

Fiapo de manga

Abro a porta de casa depois de mais um dia desses em que o trabalho aperta, o ônibus sufoca e o cansaço pesa. A cidade parece mastigar a gente. Na cozinha, uma manga me espera. Amarela, fiapenta, dessas que já entregam, na cor, que não vão sair do caroço sem luta.

Não sei nem porque a comprei. Se me perguntassem em qualquer outro dia se gosto de manga, eu diria que não, sem pensar muito. Um “não” automático, antigo, que fui repetindo sem perceber. E, ainda assim, lá estava ela. Descasco como dá. Não consigo desgrudar a polpa do caroço e, no fim, acabo mordendo-a inteira. O azedo me faz fechar os olhos, os fiapos irritam nos dentes, a meleira escorre pelos braços. Fiz uma careta, como sempre. 

E, de repente, ele me vem à cabeça.

Meu avô não se irritava com as manchas na camisa, com o caldo escorrendo até o cotovelo, com os dentes, marcados pela nicotina, cheios de fiapos. Ele cortaria um pedaço da fruta e entregaria às mãos pequenas das netas que não desgrudavam dele. Elas também estariam rindo da sujeira.

A neta que recebia os pedaços já não tem mais as mãos tão miúdas. Agora, eu reclamo dos fiapos. Reclamo do azedo, da meleira, do incômodo. Como se a fruta tivesse culpa pela vida ter ficado mais ácida nos dez anos sem ele. 

Inesperadamente, o gosto muda. O azedo ficou doce. O doce mais doce como apenas a manga mais saborosa pode oferecer. Olho para o céu limpo. Um azul raro em dias que insistem no cinza, como quem diz que sabe que estou comendo a nossa fruta. Parece que, quando a como, me vem à cabeça o sorriso, as camisas preferencialmente brancas, o nariz que parecia ter levado mais quedas do que deveria, a voz áspera ecoando dentro da memória. Doutor Oscar iria achar tão bobo: de todos seus feitos como pediatra, o que mais me faz lembrar dele é um caroço de manga, fiapento, impossível de domar.

Pego outra fruta, amarela como gema. 

Descasco devagar. 

Repito todo o ritual.

Sempre gostei de mangas.

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Maria Eduarda Vieira

vmariaeduarda898@gmail.com
25.2
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Atenção

Quando a nutricionista me deu a infeliz notícia de que, para fazer valer o plano alimentar que estou (supostamente) seguindo com rigor, eu precisaria iniciar a musculação, decretei meu atestado de óbito. Oh, céus. Fui condenada ao purgatório contemporâneo.

Sempre odiei a ideia de fazer academia. Imaginava um ambiente digno de pesadelo.
Aparelhos que me remetem a métodos de tortura medieval. Exercícios com nomes esquisitos (em inglês, ainda, para dar um tchan). Cheiro de suor misturado com uma quantidade desproporcional de desodorante masculino. Gente exibida, de nariz empinado, fazendo o tal do pump para tirar uma fotinho enquanto amaciam o próprio ego.

Para completar: todos estariam na espreita, ansiosos para que eu – o peixe fora d’água – cometesse um singelo deslize e puft, virasse o centro das atenções. 

Enquanto mastigava essa amarga derrota, todas as humilhações possíveis cruzaram minha cabeça. Rasgar a calça enquanto faço uma das vinte possíveis variações de um agachamento. Fazer força demais e soltar um pum sem querer. Me apoiar indevidamente num aparelho que cai e, como um dramático dominó em slow motion, derruba todos os que estão em volta. Deixar um pesinho cair no chão e todo mundo me fuzilar com os olhos. Ficar presa num exercício e, pasmem, pedir ajuda ao instrutor que está sendo pago para me auxiliar. Tropeçar no próprio cadarço e me espatifar no chão (vexame bônus se derrubar outra pessoa junto). Usar o aparelho de alguém que está descansando, me gravarem, eu viralizar no Instagram e acabar cancelada por desrespeito a algum dos mandamentos sagrados da comunidade maromba.

Opa, tem mais. Suar muito e marcar minha axila, embaixo do peito e nas papinhas da bunda. Não suar e parecer que não estou treinando o suficiente. Soltar um grunhido semelhante a um gemido inapropriado e deixar todos atordoados. Ficar quieta e levar uma bronca por estar indiferente demais. Meu short preto ser meio transparente e todo mundo descobrir que sou mulher e uso calcinha. Jesus.

Demorei duas semanas para marcar a bendita aula experimental. Foi numa quinta-feira, às 06h da manhã. Considerei que seria o horário com maiores chances de sobrevivência da minha reputação. Já estava preparada para virar a palhaça deste grande circo. Pagar o mico do século.

Cheguei. Uma hora passou. Não morri. Ninguém riu do meu glúteo subdesenvolvido. Nem um pitaco sobre o meu percentual de gordura estar acima da média. Nem um olhar minimamente torto em direção aos baby hairs que não consigo prender no rabo de cavalo.
Caramba.

Nada. Nadinha mesmo.

Que estranho. Como assim?

Voltei pra casa. Mandei mensagem para o pessoal da academia: “2x na semana. Vou fechar o plano anual”. Afinal, quem precisa de terapia quando se tem leg day?

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Maitê Silveira

25.2
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Não importa o alicate

– A vó tá muito diferente. Será que é por causa da terapia?

Passo um pouco de creme sobre as unhas e as coloco na água morna. 

Do outro lado da mesa minha mãe dá de ombros. A agulha sobe e desce. Ela continua costurando. 

– Eu não sei, mas ela está muito diferente mesmo. Ela vai no shopping comigo e com a Paula, fica sentada vendo a gente provar roupa e rindo. 

– Tô precisando do contato dessa psicóloga. 

Eu tiro minha mão da água morna e começo a secar. A agulha para no ar. 

– Por que, filha? Você tá depressiva? 

– Não. – respondo de imediato, sem pensar. – Mas eu sou muito ansiosa. Penso muito sobre tudo. Fico sempre me preocupando com o futuro. E lembrando do passado. 

– Ah, tá! Pensei que eu tinha te traumatizado. 

Ela volta a costurar a cabeça do Papai Noel. A agulha fura e remenda. Fura e remenda. De novo e de novo. Eu pego a espátula e começo a empurrar minha cutícula com força. Tenho duas opções agora: posso esconder a cutícula ou arrancá-la. Aprendi com a minha mãe há muitos anos que coisas feias precisam ser escondidas. Ou cortadas. Não falo nada. 

Minha mãe me encara. 

– Você e a Victória alguma vez já sofreram algum preconceito na rua? 

Eu pego o alicate e começo a tirar minha cutícula. Não olho para minha mãe e demoro a responder. Quando finalmente falo, minha voz quase não sai. 

– Ah, às vezes, quando a gente tá se beijando na rua um homem vem e pede para participar. 

Meu dedo começa a sangrar e só então percebo que me cortei com o alicate. Já não dói muito, mas incomoda. Pego um pedaço de algodão e pressiono sobre o machucado. Preciso ser mais cuidadosa. 

– O padrasto da Victória também me tratava mal. Ele nem me olhava quando eu ia pra casa dela. 

– Ah, mas é difícil. Eu também não devo ter tratado a Victória muito bem.

Minha mãe não ergue os olhos, não me vê. Ela continua costurando. Fura e remenda. É natural para ela, instintivo. Não precisa pensar, só faz igual às outras mulheres da família. Aprendeu com a mãe dela que aprendeu com a mãe também. Eu nunca aprendi a costurar. 

Procuro uma base pra passar sobre a unha. Tem várias: uma meio amarelada, outra meio rosada e uma completamente transparente. Escolho a transparência, o que me surpreende. Sempre escolhi as meio turvas.  

– Você não tratou. 

– Você é minha princesinha. Eu esperava que você fosse aparecer em casa com um príncipe, não com….

O final da frase fica no ar. 

Me corto de novo. O sangue escorre pelos cantos da minha unha. Dessa vez, eu não me mexo pra limpar. Deixo sangrar. Eu continuo a me machucar, mesmo que tome cuidado. Empurro mais minha cutícula com a espátula. Sangra mais e eu continuo a empurrar. 

– Ah, esse alicate é novo. Tá bem afiado. 

Parece que a culpa é minha. Afinal, eu escolhi o alicate. Mas não importa. Qualquer alicate que eu escolha, sempre acaba me machucando. 

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Maria Eduarda Furlanetto

mariaed.furlanetto@gmail.com
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