Estávamos no calçadão em frente à praia do Leme. Olhei para Laura, ela entendeu. Era hora de irmos até o mar. No primeiro passo, percebi que a temperatura da superfície era muito maior do que tínhamos antecipado. Eu estava atrás, seguindo a amiga, com o pé queimado, mas sem perder a pose.
Cuidado que vocês vão levar uma bolada na cara. – ouvimos uma mulher falar ao longe, apoiada em uma rede, provavelmente para os filhos pequenos.
Já no início, Laura mudou de trajeto. Percebeu que tinha um caminho molhado a mangueira, feito especialmente para dias de calor intenso. Toda a nossa comunicação era feita à base de olhares, por conta do barulho caótico do Rio de Janeiro. Sorri para um homem lindo que estava correndo a poucos metros de distância. Ele gritou algo indecifrável de volta. Tudo que ouvi foi “bola”. Coincidência. Duas pessoas falando sobre a mesma coisa em um curto espaço de tempo. Seguimos o nosso caminho até o mar. Agora já estava mais perto. Era possível ver crianças brincando perto da arrebentação.
Sai daí, sai daí ! – alguém gritava ao fundo.
Nos três dias que a gente estava no Rio, nunca tínhamos feito tanto sucesso quanto naqueles poucos minutos que nos separavam do mar. Todo mundo que passava, nos olhava. As pessoas que estavam sentadas, também. Laura esboçou uma risada para mim. Naquele momento, me senti a mulher mais linda do mundo.
Depois vão levar um chute e vão reclamar que ninguém avisou ! – mais um berro.
Estávamos chegando perto de uma área que não tinha árvores. Era só um espaço grande de areia não molhada.
Vai ganhar bolada na cara. – uma mulher disse.
Estão estragando o jogo ! – o coro aumentava.
Júlia, meu Deus ! – Laura falou, apontando para o horizonte.
Em um mastro, duas bandeiras ao vento. Uma – certamente inspirada no Flamengo – vermelho, preto e branca. Outra, azul e rosa. Logo abaixo, uma faixa gigante onde se lia: 10° Campeonato de Futebol na Areia do Rio de Janeiro. No meio “campo”, dois juízes, 22 jogadores, eu e Laura. Saímos correndo. Tão rápido que quase caí umas cinco vezes. Chegamos na parte destinada à torcida. Gritos de ódio eram proferidos em nossa direção. Pedimos desculpas. Não adiantou. O capitão de um dos times precisou acalmar os ânimos da galera. Antes de se dirigir à plateia, olhou para mim e disse, bem baixinho:
Pode atrapalhar quantos jogos quiser, bebê. Vocês são as musas do nosso Brasileirão.
Incrédula com a situação, olhei para Laura. Minha amiga, gargalhando, decreta:
A gente não tá treinada para o Rio de Janeiro.
Ela nunca esteve mais certa.


















