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Musas Brasileirão 2023

Estávamos no calçadão em frente à praia do Leme. Olhei para Laura, ela entendeu. Era hora de irmos até o mar. No primeiro passo, percebi que a temperatura da superfície era muito maior do que tínhamos antecipado. Eu estava atrás, seguindo a amiga, com o pé queimado, mas sem  perder a pose. 

Cuidado que vocês vão levar uma bolada na cara. – ouvimos uma mulher falar ao longe, apoiada em uma rede,  provavelmente para os filhos pequenos. 

Já no início, Laura mudou de trajeto. Percebeu que tinha um caminho molhado a mangueira, feito especialmente para dias de calor intenso. Toda a nossa comunicação era feita à base de olhares, por conta do barulho caótico do Rio de Janeiro. Sorri para um homem lindo que estava correndo a poucos metros de distância. Ele gritou algo indecifrável de volta. Tudo que ouvi foi “bola”. Coincidência. Duas pessoas falando sobre a mesma coisa em um curto espaço de tempo. Seguimos o nosso caminho até o mar. Agora já estava mais perto. Era possível ver crianças brincando perto da arrebentação. 

Sai daí, sai daí ! – alguém gritava ao fundo. 

Nos três dias que a gente estava no Rio, nunca tínhamos feito tanto sucesso quanto naqueles poucos minutos que nos separavam do mar.  Todo mundo que passava, nos olhava. As pessoas que estavam sentadas, também. Laura esboçou uma risada para mim. Naquele momento, me senti a mulher mais linda do mundo. 

Depois vão levar um chute e vão reclamar que ninguém avisou ! – mais um berro. 

Estávamos chegando perto de uma área que não tinha árvores. Era só um espaço grande de areia não molhada. 

Vai ganhar bolada na cara. – uma mulher disse.

Estão estragando o jogo ! – o coro aumentava.

Júlia, meu Deus ! – Laura falou, apontando para o horizonte. 

Em um mastro, duas bandeiras ao vento. Uma – certamente inspirada no Flamengo – vermelho, preto e branca. Outra, azul e rosa. Logo abaixo, uma faixa gigante onde se lia: 10° Campeonato de Futebol na Areia do Rio de Janeiro. No meio “campo”, dois juízes, 22 jogadores, eu e Laura. Saímos correndo. Tão rápido que quase caí umas cinco vezes. Chegamos na parte destinada à  torcida. Gritos de ódio eram proferidos em nossa direção. Pedimos desculpas. Não adiantou. O capitão de um dos times precisou acalmar os ânimos da galera. Antes de se dirigir à plateia, olhou para mim e disse, bem baixinho:

Pode atrapalhar quantos jogos quiser, bebê. Vocês são as musas do nosso Brasileirão. 

Incrédula com a situação, olhei para Laura. Minha amiga, gargalhando, decreta:

A gente não tá treinada para o Rio de Janeiro. 

Ela nunca esteve mais certa.

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Júlia Duvoisin

juliaduvoisin1803@gmail.com
23.2
17

Tainha não, Manezinhos

Eu sou paulista e vegetariana. Logo de cara, preciso deixar essas informações bem claras. Em Florianópolis, uma das atividades mais tradicionais é a pesca da tainha. Não, eu nunca comi tainha. Comecei a entender um pouco mais sobre a importância comercial e cultural desse peixe depois que comecei a trabalhar na televisão e tive que cobrir a abertura da temporada. 

Alguns meses depois, uma iniciativa privada construiu para os pescadores do norte da ilha pequenos ranchos de pesca mais modernos do que os que eles tinham anteriormente. Eu já sabia que a pesca nesse ano estava difícil. Nem o frio nem os peixes tinham chegado e já estávamos no começo de junho. Apesar do céu meio nublado, fazia bastante calor. 

“Vai ser difícil conseguirmos imagens desses pescadores em ação”, pensei, durante o trajeto.  

Um senhorzinho bastante simpático, o seu Luciano, frequentava o primeiro rancho no nosso mapa. Lá dentro, na pequena cozinha, a mesa estava posta.

Entra, entra. Tem cafézinho e polenta.

Eu me apresentei e ele começou a me contar sua história de vida. Pescador desde os dez anos de idade, a relação íntima do Luciano com o mar era bem clara. Enquanto me contava sobre a briga com o poder público para manter os ranchos, que até o momento eram provisórios, nas areias da praia após o fim da temporada, ele começou a observar o mar. 

Tu me dá licença? Preciso ver um negócio. 

Eu não costumo acreditar em coincidências, mas aquele dia mudou minha percepção. Como minha colega dizia, “Nossa Senhora das Pautas sempre ajuda a Gabriela”. Ele se arremessou no mar atrás de um cardume dentro da embarcação que era minha xará.

Parecia uma cena saída de um quadro. A luz do Sol refletia nas ondas do mar, enquanto Luciano remava e jogava a rede na água. Os pescadores puxavam a rede e comemoravam enquanto os peixes se debatiam. 

No fim, não eram as tainhas que estavam dando as caras. Eram os “manezinhos”, que, segundo o seu Luciano, eram ainda mais gostosos. Ele veio se despedir de mim, todo contente. 

– Vê se volta com mais calma no fim de semana. Vamos pro mar pegar uns peixes e fazer ali no rancho pro almoço, daí.

– Volto sim, seu Luciano!

O cinegrafista riu.

– Vai te embora, mentirosa. Tu nem come peixe!

 

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Gabriela Mariotto

gnmariotto@gmail.com
23.1
16

Sinta a Magia

Sento em um restinho de sombra que bate em um dos bancos de concreto próximo ao Mercado Público. Espero impacientemente por meia hora. Ela não chega. Mas não preciso ter outra conversa com ela, sei exatamente o que fazer. Retiro da bolsa meu bloco de notas e começo a anotar tudo o que aconteceu nesse tempo de espera.

Uma figura bem conhecida aqui no Largo da Alfândega aparece com o mesmo sorriso de sempre. “E aí, minha querida? Querex um alfajorzinho hoje?”. Não sei o nome dele, mas sempre que estou por aqui ele aparece para vender seus alfajores de dulce de leche, ou doce de leite uruguaio. Reconheço ele pelo bordão “Educação vem de berço, né?” que solta sempre que alguém decide escutá-lo. Não tem como deixar de comprar seu alfajor uruguaio. Ele segue abordando outras pessoas e eu sigo esperando por ela. 

Uma senhora, suponho que tenha cerca de setenta anos, para em minha frente. “Um docinho pra ajudar a vovó?”. Seus cabelos loiros misturados com os fios brancos voam em seu rosto, mas ela não parece se importar. Compro uma bala de goma. “Ah, se eu contasse minha história para você… Tô tentando a aposentadoria há alguns anos, mas enquanto não consigo me viro do jeito que dá, né?”, fala erguendo o suporte vermelho de doces que está ligado ao corpo por uma corda no pescoço e outra na cintura. Tento conversar por mais tempo, mas a necessidade e a pressa para correr contra o relógio não a deixam permanecer. 

Um pouco depois, um senhor surge vendendo piercings, alargadores, anéis e colares. Ele para do meu lado e pergunta se eu não quero dar uma olhadinha. “Você não quer trocar esse seu piercing da boca? Eu sou body piercing já faz uns cinco anos”. Com seu óculos escuro, cabelo grisalho cortado na máquina dois e todo estiloso, sempre está pelo entorno do Mercado Público. Ele também é trabalhador de rua. “Não tem como manter um estúdio em Floripa, sabe? É muito caro o aluguel da sala. E a gente precisa se manter também”. 

Quando estava quase desistindo de esperar, outra figura aparece. O encontrei diversas vezes no Centro, mas ainda não sei seu nome. Na primeira vez em que nos vimos ele parou para me vender seu CD de Reggae. Com seu cabelo inconfundível, dreads que alcançam a cintura, um abrigo verde e chinelo de dedo, sempre andando sem nenhuma pressa, ele senta ao meu lado e acende um cigarro. “Opa, nossa vereadora! Tudo bem, querida?”. Dessa vez ele não está sozinho. Com ele vêm mais três pessoas. “Você fuma? Chega aí com a gente.” Entre conversas com temas pessoais e preocupações sociais e políticas, a roda do beck é evitada por todos aqueles que passam pelo Largo. Não é a primeira vez que reparo o medo e a repulsa das pessoas em volta dele. Questiono o motivo do meu apelido e descubro que é porque paro para conversar com as pessoas que, normalmente, não recebem atenção por ali. Se eles soubessem que sou jornalista talvez o apelido fosse diferente. O cigarro acaba, e eles seguem para suas casas. Eu continuo à espera da senhora da paçoca.

Estou esperando há meia hora. Combinei de conversar com ela aqui, onde costumamos nos encontrar, enquanto ela vende suas paçocas para ajudar na renda de casa. Desde que foi demitida do seu antigo emprego, seu trabalho tem sido esse. Pelo o que conversamos anteriormente, seu marido é quem paga o aluguel da casa em que moram no Norte da ilha. Mas essa é a única conta que têm certeza que vai ser paga no fim do mês, graças à aposentadoria dele. Enquanto isso, ela espera pela sua aposentadoria vendendo as paçocas no Largo da Alfândega.

Não posso ficar por mais tempo. Guardo meu bloco de notas e a caneta na bolsa. Levanto do banco e sigo em direção ao Terminal de ônibus. São três da tarde e, no caminho, passo por alguns trabalhadores da peixaria do Mercado Público. O cheiro de peixe faz com que eu ande mais rápido que o normal e acabo escutando apenas uma pequena parte da conversa deles. “Se eu pudesse estaria em casa. Mas a gente precisa colocar comida na mesa, né?”. É. 

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Jéssica Schmitt

jessica_schmittsilva@hotmail.com
23.1
15

Saudade também ocupa o peito

Percebi que estou ficando velha. Isso não é ruim, não, mas é engraçado pensar em como as coisas estão mudando. Faz cinco anos que eu pego o mesmo ônibus, quase todos os dias, com praticamente as mesmas pessoas. Ninguém conversa entre si, ninguém sabe o nome de ninguém, mas reconheço grande parte dos rostos daqueles que usam aquela linha. Tem gente que eu sei que já se formou no ensino médio, que já mudou de emprego e que mudou até de casa. Tem gente que eu vi mudar a cor de cabelo, o estilo de roupa e até o estilo musical, só pelo som estrondoso que sai dos fones de ouvidos. Mas dia desses, quando peguei o ônibus no Terminal de Integração do Centro de Floripa, não reconheci duas figuras femininas. Uma criança, com não mais que cinco anos, e uma moça jovem. As duas tinham o mesmo cabelo encaracolado e pareciam mãe e filha. Sentada no colo da mãe, a menina estava com as costas apoiadas no vidro que divide a porta do ônibus dos bancos de passageiros, sorrindo, sapeca. Depois de ter notado a presença delas, percebi, mesmo de costas e em pé no busão, que elas brincavam de alguma coisa.

– STOP! – a menina gritou, vitoriosa.

– Que rápida! Eu só consegui pensar em um nome, animal e objeto com essa letra – disse a mãe, sorrindo.

– Ahhh eu pensei em uma cor, sabia? 

– Mas e o resto? 

Silêncio e mais risadinhas da criança.

– Esqueci.

– Ah, assim não vale!

E as duas caíram na gargalhada.. A mulher ao lado delas dormia, apesar da conversa entre as duas. Acho que ela não se incomodaria em ser acordada por uma risada de criança. 

A brincadeira continuou. Elas não usavam papel para anotar as categorias do jogo, só pensavam e falavam. O improviso deu certo, mas eu sabia que a mãe só estava tentando distrair a menina. Eu sabia porque minha mãe fazia isso comigo. Não, a gente não jogava STOP. Mas quando nós íamos para o centro da cidade, há 40 minutos da nossa casa, ela falava e me fazia falar também, tudo para que eu não pensasse no balançar do ônibus, que sempre me causou enjoo. Lembrei, então, das nossas conversas sobre a escola, sobre o trabalho dela, e também de quando as conversas não adiantavam e nós tínhamos que puxar a cordinha para sair do ônibus o mais rápido possível. Vomitei muitas vezes, e levei muitas broncas por causa disso, mas ela sempre esteve ali para segurar meu cabelo. 

Eu continuo enjoando no ônibus, mas agora tenho que puxar a cordinha do transporte sozinha. Afinal, estou ficando velha, e não sou mais uma menina como aquela criança sentada no colo da mãe.

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Aléxia Elias

alexia.elias02@hotmail.com
23.1
14

Relação anônima

Almoçar no restaurante universitário da UFSC é uma experiência antropológica. Todos os dias, centenas de pessoas comem nas mesas compartilhadas em um grande salão, a maioria delas não se conhecem. Geralmente, pequenos grupos se formam para comer juntos, sejam colegas de sala ou amigos de outros contextos. Como a maioria dos estudantes, encontro-me neste ambiente quase todos os dias. O motivo? Consigo citar três: não tenho tempo para cozinhar, não tenho dinheiro para cozinhar e não sei cozinhar. Sinto falta da comida da minha mãe, mas não estou aqui hoje para reclamar dos temperos ou, no caso, da falta que eles fazem na comida.

Queria falar sobre essa tal experiência antropológica que citei. Depois de dois anos, tornaram-se raros os dias em que almoço sozinho, sempre acabo encontrando algum conhecido. Nas raras exceções, recordo-me de quando era recém-chegado na cidade, comia todos os dias apenas com a minha própria companhia. A fim de me entreter, desenvolvi o estranho hábito de observar as pessoas neste ambiente e tentar imaginar de onde elas vieram e para onde elas vão.

São muitas as figurinhas marcadas que sempre encontro no restaurante. O cara que todos os dias almoça de terno e gravata e está com gel no cabelo, ele tem uma bolsa de couro e carrega todos os estereótipos do graduando em direito. O intercambista angolano que almoça na mesma mesa junto a outras pessoas de fora, nunca o vi sozinho, gosto de imaginar que ele voltará com muitas histórias dos bons momentos que viveu no Brasil. O rapaz de bigode e boina é quase impossível esquecê-lo, seu estilo excêntrico se mistura ao seu olhar desconfiado, me faz crer que ou ele anda estressado com as aulas do semestre ou planeja uma revolução trotskista em sigilo. 

Encontrei-me almoçando sozinho certa vez e observava as pessoas como de costume. Estava entretido com a minha própria imaginação observando as pessoas do restaurante quando escutei uma voz.  

– Posso pegar essa cadeira aqui? 

Uma garota morena, cabelo preto e olhos tão escuros que tornava praticamente impossível discernir sua íris de sua retina me fez voltar da minha própria imaginação e ver o que estava acontecendo na minha frente. 

Ela só queria pegar a cadeira da frente, eu sorri e afirmei com a cabeça.

Algo aconteceu nessa simples interação, de modo que ela passou a ser uma personagem das minhas histórias do RU. Nos vemos praticamente todos os dias no restaurante desde então. Sempre que nossos olhares se encontram em meio a multidão, nós sorrimos um para o outro. 

Queria saber ao menos o nome dela, e aos poucos fui juntando algumas pistas que me permitissem encontrá-la nas redes sociais. 

Descobri que ela faz biologia porque, certo dia, a vi com as tradicionais camisetas etiquetas da UFSC

Durante o jantar, encontrei-a com um uniforme de vôlei com seu suposto nome nas costas: Yasmin.  Era isso, a última peça que faltava do meu quebra cabeça. Precisava agora bancar o jornalista investigativo e pesquisar pelo seu nome em perfis do curso de Biologia da UFSC nas redes sociais 

Mas e depois? É essa história de como nós nos conhecemos que eu vou contar para os nossos filhos? Eu a persegui virtualmente como um stalker? Decidi não ir atrás dela. Aprecio essa relação que desenvolvemos. Nós não nos conhecemos, mas a gente se conhece. Ela sabe quem eu sou e eu sei quem ela é nós não somos dois anônimos. Uma rara relação que não é oriunda das redes. Algo que não me foi entregue através dos algoritmos.

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Felipe Bramucci

fgbramucci@gmail.com
23.1
13

Os meninos do lago

Não importa o horário, sempre tem alguém reunido ao redor do laguinho da UFSC. Dessa vez, não foi diferente. Quatro meninos com chuteiras nas mãos se debruçaram no guarda corpo de madeira. Não pareciam estudantes da universidade, afinal, tinham não mais que  12 anos. Cansados, pois haviam acabado de sair de uma partida de futebol. O frio daquela manhã de outono não era páreo para a adrenalina de correr atrás de uma bola pela quadra de esportes do projeto social do qual participavam, driblando outros meninos da mesma idade e, finalmente, fazendo um gol. Mas o jogo de futebol não era o assunto entre os amigos. Os patos do lago, que quase pareciam filhotes de avestruzes de tão grandes e gordos, chamaram a atenção dos rapazes. 

– Quack, quack! – um dos meninos, de cabelos escuros e enrolados, gritou, com a voz fina de quem ainda não tinha sequer passado pela puberdade. A camiseta branca e azul, com patrocínios nas costas, se diferenciava das dos demais.

– Ô, feio! Olha ali o filhotinho do peixe! – outro menino do grupo gritou. Todos riram, enquanto se voltavam para o lago.

– É verdade, olha como ele é pequenininho! 

– Será que se eu jogar a minha chuteira na água, ela afunda?

– Claro que não, né, feio? Vai boiar, não sabe não? 

Todos do grupo riram. Sem prestar muita atenção, o menino de camiseta azul e branca foi até uma árvore ao lado para pegar frutos cor de laranja. O cacho carregado logo começou a ser balançado pelo garoto, que parecia saber muito bem o que estava fazendo. Talvez já tenha feito isso outras vezes.

– Ô feio! Pega umas para mim aí, tô com fome! – pediu o menino sem camiseta. 

– É, pra mim também.

Quem estava do outro lado do rio conseguia ouvir a conversa. Logo o menino voltou, com as mãos carregadas de frutas. Se sentaram no chão de madeira e começaram a comer. Um vento mais forte balançou as folhas das árvores e o menino sem camiseta sentiu frio.

– Nossa, véi, agora eu tô tremendo – os outros riram, mas ele não colocou a camiseta.

Às 10 horas da manhã é intenso o vai e vem de pessoas ao redor do lago, que fica bem no meio da Universidade. Muitos se deslocam até suas salas de aula na volta do intervalo. Vendo o movimento, os meninos começaram a gritar: 

– Ô, moça! 

– Olha aquele cara! Oi, moço!

Ninguém respondia. Ninguém dava atenção. Um aluno, que vestia um terno branco e andava com confiança, chamou a atenção do grupo.

– Advogado? Preciso! – um deles gritou em direção ao homem mas, ao mesmo tempo, não parecia que ele queria que só aquele estudante o escutasse. 

– Ô, moço! Meu pai tá batendo na minha mãe – o de camiseta azul e branca também resolveu gritar. Os outros meninos ouviram e riram. Como podem rir?

Um deles levou a sério:

– Cara, se meu pai tentar bater na minha mãe, eu mato ele – novamente, risadas. 

O homem de terno não respondeu. Continuou seu caminho, sem dar atenção, assim como todas as pessoas que continuaram passando pelos rapazes. Os meninos, então, voltaram a gritar.

– Ô, moça, ô moça! – eles me chamaram quando me levantei do banco.  

Eu também não lhes dei atenção.

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Alexia Elias

alexia.elias02@hotmail.com
23.1
12

O gás

Há pouco mais de um ano, o apartamento 103 se tornou o lugar que eu e mais três pessoas chamamos de casa. Quatro jovens adultos começando a vida em uma cidade nova. Era inevitável: compartilhar a rotina nos tornaria amigos – e nos tornou. Na primeira semana, eu e uma dessas pessoas fizemos um bolo. Maria foi o primeiro nome que gravei, enquanto ela ria do bolo que deu errado. Confessei que estava nostálgica, pois quando vi meus amigos semana passada na cidade que morava, não notei que era a última vez. “Às vezes, o fim chega antes que a gente perceba ele se aproximando”, Maria disse. “Mas quando tudo isso passar, vamos ficar bem”. 

Há pouco mais de um ano, o apartamento 103 se tornou o lugar que eu e mais três amigos chamamos de casa. Mas, apenas uma vez, ele quase não foi mais. Em uma terça-feira qualquer, a proprietária avisou que o colocaria à venda. O nosso contrato já estava acabando, então os quatro foram procurar outras opções. Alguns conflitos vieram à tona, brigas desnecessárias começaram a acontecer. Maria já não ria dos meus bolos, nem das piadas. A pessoa que eu considerava mais próxima, já não estava mais tão próxima assim. Não me preocupo. Quando tudo isso passar, vamos ficar bem. 

Há pouco mais de um ano, o apartamento 103 se tornou o lugar que eu e mais três amigos chamamos de casa. E quando está perto de não ser mais, começo a notar que ele ocupa um lugar maior que o esperado no meu coração. Até as manchas da parede me fazem chorar por apego. A vista da janela, que por tantas vezes encarei tomando um vinho e sentindo tudo que podia sentir com o vento batendo no rosto, parecia cada vez mais bonita. Não faço mais bolos com Maria. Na verdade, tenho preferido comprar pronto para não esbarrar com ela na cozinha. E dói. Mas ainda não me preocupo. Quando tudo isso passar, vamos ficar bem. 

Há pouco mais de um ano, o apartamento 103 se tornou o lugar que eu e mais três pessoas chamamos de casa. Na primeira semana, fiz um bolo de chocolate para comemorar. Então, na semana que seria a última, decidi fazer outro. Separo os ingredientes que tenho no armário, vou ao mercado comprar os que faltam. Misturo tudo, coloco na forma, reclamo que esqueci de pré-aquecer o forno. Tento uma, duas, três vezes. E nada. O forno simplesmente não acende. Será que o gás acabou? Abro a porta em que deixamos o botijão e… ele não está lá. Vou até o

quarto de Maria. Não estamos conversando, mas essa situação com certeza vai puxar um diálogo, pensei. Quando a porta se afasta com meu toque, vejo que ela não está lá. Nem as coisas dela. Nem o botijão. Não acredito que ela foi embora e levou a porra do botijão. Não acredito que ela não estava lá para rir do bolo. Às vezes, o fim chega antes que a gente o perceba se aproximando. Quando tudo isso passar, vamos ficar bem?

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Thais Kethlen

thais.keth2001@gmail.com@gmail.com
23.1
11

Meu Santo Antônio é tímido

Eu conheço pouco sobre tradições católicas. Minha família nunca foi religiosa e eu não tive muita vontade de aprender. Por isso, quando cheguei na redação naquele dia 13 de junho, tive que perguntar para meu editor o que era a tal festa de Santo Antônio que eu iria cobrir. 

É uma tradição católica bem forte. Eles dizem que se você encontrar a figura do santo dentro do seu pedaço de bolo, você vai casar em breve. 

Comecei a achar divertido. Adoro fazer entradas ao vivo em eventos. Então, claro, já me preparei para procurar o meu santo no bolo e mostrar para todo o estado. Eu estava confiante que ia tirar o pedaço premiado.

A pequena igreja que homenageia a figura fica escondida no centro de Florianópolis. Só encontramos porque todos os veículos da imprensa regional estavam estacionados bem na frente. Logo que entrei, fui conversar com as figuras que estavam por ali: o organizador da festa, as vendedoras do bolo, as confeiteiras, e, claro, o frei responsável pela paróquia. Ele conversava com uma fiel, que pedia uma bênção para a imagem do santo que ela tinha em mãos.

Esse ano o casório sai!

Não era só ela que tinha essa esperança. Anualmente eram vendidos mais de dez mil pedaços de bolo para quem quisesse tentar a sorte. O frei me entregou a fatia que tinha em mãos e disse que, mesmo que meu bolo não viesse “premiado”, ainda assim traria muita felicidade.

Já estava tudo pronto: meu pedaço de bolo em uma mão, o microfone em outra e o fone de ouvido colocado, ouvindo a apresentadora chamar. 

E aí, Gabi, vai garantir seu pedaço de bolo?

Sorri para a câmera e mostrei o doce, já mexido. 

Já comprei o meu e o dos meus amigos solteiros, para ver se traz amor! Vou devolver para você no estúdio e continuar procurando para ver se o pedaço trouxe sorte.

No meu ponto, meu chefe avisou que iam continuar usando minha imagem no encerramento do jornal. Concentrada na minha busca pelo casamento, destruí o bolo em frente à câmera. Nada. Não era dessa vez. 

Cheguei no carro desolada. Só me restava terminar de comer meu doce, já que o marido ia ficar para o próximo ano. Entre as mordidas, senti algo duro. 

“Era só o que me faltava. Agora além de não ter casamento, vou perder o dente”

Puxei um pedacinho metálico envolto por plástico. Uma pequena figura de um homem segurando o menino Jesus estava em minhas mãos. Era ele: meu Santo Antônio tímido que não quis aparecer em rede estadual.

 

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Gabriela Mariotto

gnmariotto@gmail.com
23.1
1

Gabrielli tá no sofá

Uma troca de mensagens com a Lê decide nosso plano de sexta-feira: visitar o novo boteco, que passou por um rebranding quase que total. A nova localização é bem pertinho da muvuca do Centro Leste, no segundo andar de um prédio comercial. Subo os lances de escadas com uma sensação ruim nos olhos. Percebo, então, que as luzes amarelas reconfortantes foram substituídas por aquelas brancas que fazem a gente piscar para se acostumar com a claridade. Uma, duas, três piscadas. Assim, consigo enxergar rostos não tão amigáveis, mas familiares. “Ah não! Teríamos conseguido despistá-los, se não fossem essas crianças enxeridas!”, imagino o pensamento dos clientes mais antigos.

Depois da usual ida até o balcão em busca de bebida, pegamos uma mesa na frente da banda que toca pagode ao vivo. Virei para buscar uma cadeira e dei de cara com uma mulher negra, com tatuagens no corpo todo e mechas loiras no cabelo, conversando com um homem enquanto dançava. Notei que todos meus amigos não deixavam de olhar para ela. Ao contrário da Capitu, não havia nela olhos de ressaca, mas olhos de dureza, de noite mal dormida, aguçados procurando um cliente. A conversa virou uma discussão e logo descubro seu nome: “Tá doida, Gabriele!”. Ela solta alguns palavrões como resposta e vai em direção a outro cara do boteco. Parece que o próximo alvo foi atingido. Dessa vez, Gabriele ganha cerveja e cigarro no lugar de rejeição. 

A cara fechada dessa figura resulta num ar máximo de respeito e imponência. Dá para notar que os homens ali sentem, ao mesmo tempo, atração e medo. Será que, com dinheiro, alguém consegue ter controle sobre ela, mesmo que apenas sexual? Ou a proposta desse one a one é outra? Meus pensamentos são interrompidos por um “Ei, você tem um isqueiro aí?”. A voz da trabalhadora é rouca, mas não me surpreendo. Desde minha chegada, já foram uns três cigarros para a conta. Depois de acender e dar uma tragada, ela me pergunta se o homem mais velho na mesa do lado está me incomodando com as cantadas. Balanço a cabeça para dizer que sim. “Não tem vergonha na cara, não? Cê tem idade pra ser vô dela, mano!”. O velho sai de perto, sentindo um pouco mais de medo do que tesão por ela. 

Pagode vai e pagode vem. Cachaça vai e cachaça vem. Percebo que criamos um laço de amizade quando a patroa do boteco me oferece cerveja, ao agradecer pelo isqueiro. De pouco em pouco, a face carrancuda vai se desprendendo da mulher à minha frente. Mas, para os outros, ela continua sendo uma autoridade. É ela quem comanda a playlist durante o intervalo da banda. É também quem afugenta os caras indesejados. Depois de perguntar o meu nome, revela o seu verdadeiro. Mas deixa claro que só posso chamá-la pelo codinome. Mais uma dúvida surge em minha cabeça: “Por que escolheu Gabriele e não Gabriela?”. 

De repente, sua cara fecha ao perceber uma mulher mais jovem perto de um dos seus clientes. “Vaza que essa área é minha”. Gabriele tem o boteco da Lê como local fixo de prospecção de clientes. As outras mulheres do bar procuram um romance de fim de noite. Nesses momentos, ela usa o sexo para ganhar dinheiro. Amor, tesão, desejo não entram em cena durante seu trabalho. Os olhares fixos em seu corpo e, até mesmo aqueles que se desviam por pudor, ecoam o não dito em voz alta. Puta, prostituta, vagabunda, mulher da vida, garota de programa ou apenas GP. Já são duas da manhã e decido voltar para casa com minha amiga que tem quase o mesmo nome da trabalhadora. Aviso à roomie:   “Gabrieli tá dormindo no sofá”. Vários pontos de interrogação vão surgindo na minha tela do celular. “Tem problema a Gabzera dormir aqui?”, respondo, aflita.   O celular vibra: “Que susto, pensei que era a GP”.

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Giovanna Goin

giovannagoin19@gmail.com
23.1
10

Faz o pix

Às vezes, na vida do pobre, tem certas oportunidades de dinheiro fácil que não tem como negar. Caminhando para o evento, Dona Yara e eu engajamos numa rápida conversa: 

– Tem certeza que não é golpe? – pergunto

– Claro que não, já participei antes! Você estudou?

– Estudei. Mas eu tô aqui faz cinco meses só, Dona Yara.

Estávamos, agora, a duas horas dos prometidos 100 reais. Chegamos e sentamos, junto com mais 10 mulheres, ao redor de uma mesa coberta de aperitivos… Ao meu lado, a coordenadora explicou o fluxo da reunião. Cada uma das participantes supostamente conhecia a carreira política de alguma candidata a deputada federal por Santa Catarina e deveria responder às perguntas sobre mulheres na política. Eu, que havia feito o dever de casa sobre apenas duas deputadas, me preocupava com o que teria para acrescentar.

O debate começou hesitante, com poucas falas. Yara iniciou seus discursos. Só se calava para ouvir a próxima pergunta e levar os quitutes da mesa à boca. Estava agora se deliciando com um biscoito, enquanto prestava atenção à fala de uma mulher que parece ser apaixonada por uma deputada.

– Não sei não. Ela não fez nada para mim – interrompeu Yara, limpando a boca com o guardanapo.

– Como assim? – perguntou a mulher. 

– Não fez nada. Eu ando na minha rua e não tem um buraco que foi tapado por ordem dela. Ela só fala e não faz nada.

– Mas para mim ela fez. Se as coisas que ela fez não chegaram à senhora é porque não… 

– Não votei nela – interrompe novamente.

A mediadora desconversou. Muda a pergunta para algo genérico, que, em tese, não deveria provocar discussão.

– Vocês acham que as mulheres deveriam ocupar mais espaços na política?

– Sim. Aliás, eu acho que o que estamos fazendo aqui é ótimo! Debatendo política! Sendo cidadãs! É isso, é pra isso que eu estou aqui. E nos damos muito bem, nós, mulheres. Por isso que o Brasil tá desse jeito, só tem homem interesseiro no poder.

Mais alguns segundos de discurso foram proferidos por Dona Yara. Eu mesma falei, por mais que pensasse que não teria muito o que contribuir. Discurso vai, discurso vem, e mais de duas horas se passaram. As perguntas da mediadora acabaram e as participantes avaliaram a conversa: se realmente tinha sido efetivo, se tinham aproveitado o encontro, refletido. 

Formamos uma fila para sair. Parada na porta, a mediadora do debate no celular. Uma por uma, recebíamos o pix e saímos. Estávamos retornando para casa, 100 reais menos pobres, quando questionei Yara:

– Por que será que nos pagaram pra fazer isso?

– Temos que ser cidadãs políticas! A recompensa é só um agrado.

– Se fosse de graça você iria?

– Ainda teria os salgadinhos!

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Karolaine Heckler

heckler.karolaine@gmail.com
23.1