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Musas Brasileirão 2023

Estávamos no calçadão em frente à praia do Leme. Olhei para Laura, ela entendeu. Era hora de irmos até o mar. No primeiro passo, percebi que a temperatura da superfície era muito maior do que tínhamos antecipado. Eu estava atrás, seguindo a amiga, com o pé queimado, mas sem  perder a pose. 

Cuidado que vocês vão levar uma bolada na cara. – ouvimos uma mulher falar ao longe, apoiada em uma rede,  provavelmente para os filhos pequenos. 

Já no início, Laura mudou de trajeto. Percebeu que tinha um caminho molhado a mangueira, feito especialmente para dias de calor intenso. Toda a nossa comunicação era feita à base de olhares, por conta do barulho caótico do Rio de Janeiro. Sorri para um homem lindo que estava correndo a poucos metros de distância. Ele gritou algo indecifrável de volta. Tudo que ouvi foi “bola”. Coincidência. Duas pessoas falando sobre a mesma coisa em um curto espaço de tempo. Seguimos o nosso caminho até o mar. Agora já estava mais perto. Era possível ver crianças brincando perto da arrebentação. 

Sai daí, sai daí ! – alguém gritava ao fundo. 

Nos três dias que a gente estava no Rio, nunca tínhamos feito tanto sucesso quanto naqueles poucos minutos que nos separavam do mar.  Todo mundo que passava, nos olhava. As pessoas que estavam sentadas, também. Laura esboçou uma risada para mim. Naquele momento, me senti a mulher mais linda do mundo. 

Depois vão levar um chute e vão reclamar que ninguém avisou ! – mais um berro. 

Estávamos chegando perto de uma área que não tinha árvores. Era só um espaço grande de areia não molhada. 

Vai ganhar bolada na cara. – uma mulher disse.

Estão estragando o jogo ! – o coro aumentava.

Júlia, meu Deus ! – Laura falou, apontando para o horizonte. 

Em um mastro, duas bandeiras ao vento. Uma – certamente inspirada no Flamengo – vermelho, preto e branca. Outra, azul e rosa. Logo abaixo, uma faixa gigante onde se lia: 10° Campeonato de Futebol na Areia do Rio de Janeiro. No meio “campo”, dois juízes, 22 jogadores, eu e Laura. Saímos correndo. Tão rápido que quase caí umas cinco vezes. Chegamos na parte destinada à  torcida. Gritos de ódio eram proferidos em nossa direção. Pedimos desculpas. Não adiantou. O capitão de um dos times precisou acalmar os ânimos da galera. Antes de se dirigir à plateia, olhou para mim e disse, bem baixinho:

Pode atrapalhar quantos jogos quiser, bebê. Vocês são as musas do nosso Brasileirão. 

Incrédula com a situação, olhei para Laura. Minha amiga, gargalhando, decreta:

A gente não tá treinada para o Rio de Janeiro. 

Ela nunca esteve mais certa.

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Júlia Duvoisin

juliaduvoisin1803@gmail.com
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Mega-sena

Dia de sorte

Você jogou na Mega-Sena. Era para estar economizando, mas gastou cinco reais num bilhete para ter a chance de mudar de vida. Você assinalou os mesmos seis números da sorte que escolheu todas as vezes em que jogou, mas continuou confiante. É quarta-feira, nove da noite, e você continua atualizando a página do Google para ver o resultado do sorteio, na esperança de que os seus seis números sortudos apareçam na tela. 

A página atualiza. Você segura o fôlego e imagina que conseguiu. Depois do azar de não ter nascido herdeiro, finalmente chegou o seu momento. O momento em que os humilhados foram exaltados. 03-06-13-26-47-52. Você agradece a todos os deuses ao ver seus números escolhidos sendo sorteados. Nem consegue pregar o olho naquela noite e antes que o sol nasça, você já se arruma para ir até o banco buscar seu dinheiro.

Você não se lembra se o prêmio era de 30 milhões ou 15 milhões de reais. Só torce para que não sejam 3 milhões, porque é muito pouco. A riqueza já subiu à cabeça. No caminho até o banco, você pensa no apartamento à beira-mar que vai comprar. Começa a ficar nervosa pensando se vai conseguir encontrar um designer de interiores que realmente capte o seu estilo. Será que é melhor comprar uma BMW ou uma Mercedes? Você não entende muito de carros, mas Mercedes é um nome mais bonito, então decide que vai comprar umas três dessas. 

Quando entra no ônibus, olha para todas as pessoas ali e percebe que elas não sabem que estão do lado de uma milionária. Você sente pena. Todos aqueles trabalhadores indo bater ponto no trabalho enquanto você está a caminho do bem-bom. Você se lembra dos pobres coitados que existem no mundo. Seria bom doar um pouco do dinheiro, né? Se o prêmio for de 30 milhões, talvez você doe um milhão de reais. Mais que isso, já é muita bondade!

Durante o caminho, pensa em todas as comidas chiques que vai comer. Até na academia você vai se matricular e, dessa vez, não vai ter desculpa para faltar. Nunca mais vai trabalhar na vida. Daí, você lembra que um dia o dinheiro pode acabar. Vai ter que investir. Você passou a vida inteira pensando que investimento é coisa de homem rico branco, então não faz ideia de como fazer. Vai ter que contratar alguém para cuidar das finanças. E se te roubarem? Talvez seu amigo rico, Victor, saiba indicar um contador.

Descendo do ônibus, você percebe que mesmo que não diga para ninguém que ganhou na loteria, haverá sinais. Pensou em todos os sanguessugas que vão se aproximar de você por 

causa do dinheiro. Vai ter que ajudar todo mundo próximo, para não fazer desfeita. Ser rico deve ser muito difícil. Vai ter que se consultar com uma psicóloga. Só nessa brincadeira, já gastou metade do prêmio. 

Bufando, você chega no banco. Decide conferir no celular o verdadeiro prêmio. Três milhões de reais. Só isso? Sério? Podia ter ganhado quando o prêmio fosse maior… Nem um apartamento na beira-mar vai dar de comprar. Você percebe que estava divagando demais, e se vê encarando a tela do celular, às nove da noite. O Google atualizou. Você não ganhou na Mega-Sena. Bem, assim era melhor. Você não queria doar um milhão para a caridade.

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Julia Gotz

juliaagotzz@gmail.com
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MAX-7073

Fazia 20 anos que eu assistia meu pai acompanhar a odisseia de um fusca vermelho desbotado. Com frequência ele chegava em casa ansioso para contar as boas novas, que para nós, pouco importavam. Contava que o Fusca tinha sido adquirido por uma pedagoga da cidade vizinha que havia ocorrido uma troca de proprietários e agora um jovem garçom era o atual dono do seu carro preferido.

O Fusca já era um velho conhecido seu. Em 1975, poucos minutos após sair novinho da concessionária da Volkswagen, meu pai já havia deixado sua marca nele fazendo xixi nos bancos recém-desembalados. O Fusca foi uma troca entre o meu avô e um vizinho por algumas toras de lenha. Nele, aprendeu a dirigir, viajou, pegou chuva pelo basculante, desafiou buracos das não-asfaltadas ruas de Grão-Pará e levou minha mãe para o meu pré-natal. Apelidou o carro com as três letras que compunham a sua placa: MAX.

O ano de 2003, porém, chegou com o meu nascimento e a sua modernidade aniquiladora personificada em um Gol branco. O carro era pálido, silencioso e a decisão de que seria melhor do que o Fusca fez sentido. Meu pai, ocupado na época com o meu nascimento e escolhendo suas batalhas, concordou: 

— Ele já está muito velho mesmo. 

Acontece que visões utilitaristas param de fazer sentido diante do teste do tempo.  MAX percorreria quilômetros, dirigido por outros condutores, sempre sob a vigilância atenta do jovem, agora vendedor de automóveis. A nossa vida parecia apenas um passatempo enquanto o Fusca não voltava para o meu pai. Quando perdia o carro de vista — não que fosse fácil perder um fusca vermelho e barulhento em uma cidade pequena —,  ia perguntar na praça sobre o paradeiro, daquilo que, na sua opinião, era a obra-prima da Volkswagen.

Quando o carro finalmente voltava para suas mãos na revenda em que trabalhava, era com um sorriso de canto, como quem desafia o destino a separá-lo da máquina vermelha e barulhenta, que ele respondia: só venderia o carro pelo dobro do que ele valia. Assim, um por um, espantava os interessados. Chegava em casa e contava como  MAX conquistava a todos.

Quando um agricultor aposentado, motivado por uma pequena dose de insanidade, ofereceu o dobro do valor pela relíquia, deixou-o sem espaços para poréns. Já com o dinheiro vivo em mãos, as duas filhas para as quais ele prometera dar o melhor pareceram fazer mais sentido do que o velho MAX. Sem muito direito de escolha, aceitou:

— Ele já está muito velho mesmo. 

Meu pai chegou em casa, naquele dia, melancólico. Nas mãos do agricultor, o Fusca permaneceria por anos. Até que, com a ajuda do destino, caprichoso e implacável, o Fusca voltou para meu pai  em uma negociação. Max, outrora tão mais vermelho e útil, havia envelhecido como ele. Diversas foram as visitas à oficina, seguidas de uma frase esperançosa:

— Agora resolvemos de vez o problema.

A partir dali, todos os domingos eu era acordada com o barulho do polidor polindo a cor desbotada que agora lembrava muito um alaranjado. Escutávamos as rádios com toda a qualidade que um fusca de quase 50 anos podia oferecer. Como quem anuncia um novo integrante na família, a nossa programação de domingo passou a ser visitar as pessoas que guardavam memórias do MAX. Assim que reconheciam o fusca e o meu pai dentro dele, sorriam, saudosistas. Seus tios mais velhos, que muito entendem sobre memórias, pouco compreendiam o valor do automóvel, olhavam com pena, achando que o sobrinho havia empobrecido. Quando chegávamos, após os elogios, perguntavam: 

— Mas vocês têm outro carro, né?

Em algum momento daquela conversa, como já sabíamos, o meu pai soltaria: “Esse Fusca aí não tem preço, tem é valor!” De fato, não tem

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Laura Böger

lauraboger69@gmail.com
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Identidade

– Ora pois, precisamos cantar alguma música bué da fixe juntos. 

Senti um turbilhão de emoções com aquele rapaz que tinha acabado de conhecer. Era a primeira vez em dois anos que eu escutava o sotaque de Portugal e isso me trouxe um sentimento de identificação que eu jurei que nunca teria. Cresci em Cabo Verde. Um país rico em cultura, tradições e valores. Porém, percebo que devido ao pouco tempo de independência, ainda lidamos com muitas influências da colônia que recaem na construção da nossa identidade. Isso despertava em mim um misto de rebeldia e resistência, alimentando um sentimento de desprezo pela cultura, pela língua e até mesmo pelos nativos portugueses.

Quando cheguei no Brasil, um país com a mesma história, mas que se desvencilhou, de certa forma, das amarras culturais portuguesas, foi um alívio muito grande. É lindo ver a autenticidade da cultura brasileira e a língua portuguesa falada de forma única. Quando me deparei com um português, cidadão que representava tudo o que eu repudiava e criticava, e senti algo tão familiar, me espantei. Eram sentimentos muito confusos. O ódio se misturava com a familiaridade e a resistência confrontava a saudade. Sempre soube que quem está longe costuma dar mais valor às virtudes da sua terra. Nunca precisei disso para valorizar a minha cultura. Só não achei que a minha questão seria reconhecer e admitir as minhas raízes. 

Enquanto eu estava muito perplexa, o português estava muito animado. Ele me mostrou uma lista de músicas em seu celular que eu não ouvia há quase dois anos. Meu coração se preencheu com uma nostalgia que derrubou todas as paredes de orgulho que havia construído a vida toda. Era uma noite de karaokê como toda quinta-feira. Enquanto eu cantava aquela música portuguesa que eu ouvia repetidamente quando adolescente, percebi como o verdadeiro desafio não é negar completamente os elementos impostos, mas, sim, entender que a identidade não se limita a rótulos pré-estabelecidos. Ela é uma junção de experiências, memórias afetivas e construções individuais. A verdadeira liberdade está na capacidade de abraçar as nuances da nossa história, aceitando que a identidade é um espectro de sentimentos, no qual o amor e a repulsa podem coexistir, revelando um caminho de aceitação e compreensão de nós mesmos.

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Kelly Patricio

kellypatricio98@gmail.com
23.2
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Hora do rush

Tem gente que diz que a ponte Hercílio Luz lembra a Golden Gate, em São Francisco, na Califórnia. Eu não acho. A velha senhora é única. Mas, apesar da distância, se tem uma coisa capaz de unir duas grandes metrópoles, essa é a agitação de fim de tarde na região central. Ainda mais em uma quarta-feira, véspera de feriado prolongado. Por aqui não temos o famoso Pier 39 que vejo pelas telinhas, mas opção turística é o que não falta. Perto das 18h, as badaladas do sino da catedral anunciam o fim do expediente. A essa hora já é difícil encontrar um bom lugar nos bares. As mesas invadem as ruas na disputa por espaço com os carros. Em um dos estabelecimentos, avaliado no Google como local que serve bebidas “estupidamente” geladas, trabalhadores da construção civil com uniformes azuis se unem a homens de terno e gravata que aparentam ter acabado de sair de um filme com James Bond.

A garoa fina e o céu cinza anunciam que o feriado será molhado. Desânimo para aqueles que ainda estão com as torres de Chopp intactas sentados à beira da calçada,  mas não para os vendedores de capa de chuva. Três deles surgem como num passe de mágica junto da multidão que atravessa na faixa entre o Mercado Público e o terminal de ônibus. O tempo que o semáforo fica fechado para os carros, suficiente para travessia no meio tarde, agora já não dá conta de deixar fluir as dezenas de pessoas que se agrupam nos dois lados da via. Para sorte de quem aguarda a leva de veículos passar, “três pacotes de bolacha é dez”, anuncia o vendedor de polvilho. Quando o semáforo fica verde para os pedestres, a inquietação daqueles que mal têm tempo para uma cerveja se traduz em passos apressados rumo ao terminal. Afinal, os ônibus já estão partindo do outro lado da Avenida.

Perto das 19h, é a vez do Rei encerrar o expediente. Hoje quem encontrou uma mesa vazia para beber nas proximidades do Mercado, escolheu curtir o happy hour no embalo de samba e pagode. De paletó azul, o cover de Roberto Carlos segue despercebido rumo à plataforma de ônibus. Nem mesmo a rosa, presa ao bolso direito da roupa, faz com que os passantes o reconheçam. Assim como o caminhar frenético dos pedestres, rapidamente a vida boêmia toma conta da região. A essa hora o caminho que leva até o terminal já não tem mais aglomerações. Os vendedores de capa de chuva e polvilho se foram. E o semáforo, que foi o centro das atenções durante o dia todo, voltou a lidar com a falta de gente.

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Robson Ribeiro

ribeiro.robson.grad@gmail.com
23.2
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Feliz nosso dia

Faz dois anos que me obrigo a pensar que é só um exagero. Mas hoje, enquanto estava indo jantar com meu amigo o que o Restaurante Universitário oferecia para celebrar este dia específico, a ficha caiu. 

Hoje é o dia do preto, hein? Lá na minha cidade, em São Paulo, é feriado. Só aqui que não. 

Como a universidade organizou um cardápio especial, imaginei que, pelo menos, não consideravam uma data qualquer. Chegamos na fila para entrar. Dava para sentir o cheiro do calulu lá de fora.

Na verdade, você deve ser a única. – continuou, desta vez, em tom de piada. 

Meu colega, longe de me fazer rir, semeou uma pergunta na minha cabeça. Depois de alguns minutos, a refeição acabou. Estava na hora de sair. Conversa vai e conversa vem, meu amigo voltou para casa. Decidi ficar por ali e sentar no mesmo banquinho de sempre. Desta vez, não iria apenas aproveitar o tempo do intervalo em meio a uma aula. Queria reparar nos detalhes. Contar com quantos conseguia me identificar – ou não.

 Parecia que tinham sumido. Cadê os demais?

Observei os grupos grandes, mais de vinte pessoas, indo e vindo ao meu redor. Zero. Olhava também para alguns conhecidos, quem era da minha turma ou tinha sido meu professor nos semestres anteriores. Analisei aqueles que estavam parados, à espera do ônibus. Mais uma vez, zero. 

Ninguém parecido comigo estava entre eles. Que desespero. Será que sou a única mesmo? 

Um, dois… BINGO!

No meio da movimentação que caracteriza o horário das 18h, duas pessoas caminhavam na minha frente. Uma senhora, de uns 65 anos, carregando algumas sacolas de mercado. E um homem, mais jovem, de calça azul e camiseta branca, arrastando uma lixeira vazia e alguns outros utensílios de limpeza. Sequer se olham, não se conhecem. Apenas continuam seus caminhos e, na aglomeração de rostos pálidos, se desvanecem. 

Enquanto estava sentada, só vendo quem passava por lá, alguém se aproximou. Agora, na minha lista, eram três. Ele chegou mostrando seu expositor de colares. Reconheci o cabelo grisalho e a voz rouca que fala sem pressa.

Opa, boa tarde. Gostaria de dar uma olhada no meu trabalho?

Não era a primeira vez que ele me via naquele lugar, também não era a primeira vez que vinha conversar comigo. Por um momento até esqueci do dilema interno que estava enfrentando antes dele chegar. 

Obrigado, moça. E feliz nosso dia, né? 

É. A conta não bate.

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Victoria Alejandra

victoriaalejandrapradopacheco@gmail.com
23.2
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ENREDADOS

No caminho para a universidade, me permito colocar meu fone e ir para outra realidade, acompanhada apenas de sons, melodias e pensamentos. Chego na aula e me sinto desatualizada, preciso checar o celular. Acidentalmente se foram 30 minutos. Uma mulher falava sem parar, talvez eu devesse dar mais atenção a ela, porém deslizar os dedos pela tela é muito mais sedutor, a delícia de não saber o que vem a seguir. Desastre climático, famosa traída ou bala perdida? desce mais um pouco…

Ergo o olhar, até que a professora está falando algo interessante. Ela fica feliz em ver minha atenção à sua fala, meu coração aperta. Olho ao redor e vejo pescoços curvados. Celulares e notebooks roubam a cena. (In)felizmente, sou daquelas que repara em tudo. Grupos e conversas de Whatsapp lideram as minhas observações nas telas alheias. Reels do Instagram aparecem em segundo lugar. Quando é vídeo de bichinho fofo, fico um pouco derretida, confesso. Mesmo assim, me questiono: por que estamos aqui se de fato não estamos? Na chamada, todos estão presentes.

Um dia os papéis se inverteram. É a minha vez de apresentar o trabalho que passei semanas produzindo, apurando, editando, surtando. A crítica alheia me causa medo, já sou ferrenha comigo mesma. Mas, neste caso, o julgamento ainda seria um bom sinal, um indício de atenção. A realidade é que ninguém deu a mínima para o que eu fiz. Me senti idiota, falando para o nada e argumentando com o silêncio. A professora incentivou o debate:

E ai pessoal, o que acharam? 

Nenhuma resposta. De repente, um som de risada alta atravessou o ar. Todos olharam para a dona da gargalhada, e ela olhava para o celular. Deve ter visto algo engraçado e não se controlou. Criou-se uma atmosfera de vergonha alheia. 

Compartilha com a gente, também queremos rir!! – provocou a professora.

A aluna de graduação soltou o celular e conteve o riso. As apresentações seguiram e eu pude voltar para a minha carteira. Em que momento deixamos essas coisinhas com luz azul dominarem nossas vidas? Será que eu realmente concordo com os termos de uso? Bom, agora já é tarde para moralismos. A jovem risonha também apresenta o seu trabalho. Eu não dou a mínima.

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Luana de Almeida Angelo

luanadealmeidaangelo@gmail.com
23.2
30

Domingo de sol

Existe um provérbio japonês que diz “Cultive quando fizer sol, leia quando chover”. Cansado da chuva e das quatro semanas preso aos livros, resolvi cultivar um pouco de vida. Nada melhor que um domingo de sol para semear novas lembranças. O dia ensolarado deixa as pessoas com um semblante mais animado e sorridente. Ao contrário do último final de semana, hoje o churrasquinho na frente do Terminal do Centro está a todo vapor. O cheiro de carne assada, típico de um domingo brasileiro, invade a avenida. É fumaça que não acaba mais. Mas nem só de churrasco vive um bom domingo. No camelódromo, dois trabalhadores lavam o telhado de uma das barracas. Pelo visto, as águas das últimas semanas não deram conta de eliminar a sujeira. Mas o mais provável mesmo é que eles queiram retirar o musgo. O aguaceiro foi tanto que já se via até o limo brotar sob as telhas.

Diferente do céu cinzento dos dias nublados, hoje quem veio passear no Centro deu vez às roupas coloridas. Cada peça se soma à explosão de cores dos murais de grafite nos prédios históricos. Três senhoras, caminhando em direção à ponte Hercílio Luz, são o exemplo de combinação perfeita. Resolveram apostar nas blusas florais. Se foi tudo combinado, eu não pude notar. Mas o fato é que as amigas usavam peças idênticas. Como se isso não bastasse, as três carregam bolsas pretas, revestidas por argolas de metal, presas sob o braço esquerdo. E o caminhar? Uma coreografia não ensaiada cheia de sintonia. O guarda-chuva, item que há semanas era o fator condicionante para sair de casa, sumiu do mapa. Quem deu as caras foram as casquinhas de sorvete. A recepcionista da lanchonete não para um segundo sequer. E o caldo de cana com pastel? A dupla queridinha finalmente retornou às ruas da cidade.

A paz do domingo vai chegando ao seu auge ao passo que se sobe a ladeira que leva até o Parque da Luz. Os prédios históricos ficam para trás e vem chegando a calmaria trazida pela brisa do mar, que contrasta com as risadas, apitos e a correria das crianças pelo gramado. Ali ao lado, na ponte, um grupo de dança do ventre se apresenta na cabeceira. Os turistas ainda aprendem a andar com os patinetes. E assim, já diante da luz do sol poente, cada uma daquelas pessoas cultiva novas, e talvez as melhores, lembranças do primeiro domingo ensolarado depois de quase um mês.

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Robson Ribeiro

ribeiro.robson.grad@gmail.com
23.2
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Diário de uma universitária

 Naquela bendita subida que caracteriza a rua de casa, um sofá de três lugares era carregado por duas pessoas bem na minha frente. Enquanto eu levava o encosto dele na cabeça para facilitar a viagem, percebi que esse seria apenas um de tantos perrengues que estariam por vir durante a minha estadia em Florianópolis. Apesar disso, mesmo que não parecesse, era um dia feliz. 

Depois de um mês sentando no chão, na expectativa de tornar nosso novo cantinho mais confortável, eu e “as meninas” – como costumo chamar as duas amigas que tinham acabado de se mudar comigo – desconfiávamos cada vez mais daquela mulher que prometia ceder um sofá em perfeitas condições à primeira pessoa que entrasse em contato com ela. Os mesmos comentários se repetiam quase toda hora na casa 1, nossa residência: 

Te respondeu? 

Ela sumiu de novo. Será que já doou?

Que enrolação, só queria um lugar para sentar nessa sala. 

Era começo de abril, os bairros ao redor da UFSC estavam repletos de crianças brincando de ser adultos. Assim como a gente. E se todo mundo estava em busca de aluguéis mais em conta, supermercados com promoções e opções de brechós econômicos, quem iria desperdiçar um sofá novinho, de graça e sendo ofertado publicamente? Eu sei, nossas chances não eram muitas. Porém, numa quarta-feira, bem no dia do meu aniversário, chegou a mensagem:

O móvel ia ficar com meu Centro Acadêmico, e acabaram não buscando. Se vierem agora, o sofá é de vocês.

Já tínhamos pensado em tudo. O lugar onde ficaria perfeito. Que tipo de almofadas combinariam. Até me imaginei tirando um cochilo depois de um longo dia de aula. Só faltava um pequeno detalhe… como iríamos trazer aquilo? Olhamos o GPS em nossos celulares. A pé, eram exatos doze minutos de distância. 

Tão perto, mas tão longe.

E se pedirmos um frete?

Estou sem grana.

De uber?

Não vai caber.

Vai ter que ser no braço. 

A ida foi fácil. Talvez a volta também não fosse complicada, pensamos. Aí a porta do prédio abriu, interrompendo nosso pensamento esperançoso. Descobrimos que precisaríamos subir um andar. Mais um… Só mais um pouco. 

Terceiro piso de um bloco sem elevador. Que pesadelo. Depois de alguns minutos lutando contra as portas, degraus e o mascote daquela mulher – um cachorro salsicha que não parava de ameaçar morder nossas panturrilhas -, o esposo da moça se ofereceu para ajudar a terminar de descer o sofá. Mas só ajudou a descer, mesmo. O resto era por nossa conta. 

Se demoramos doze minutos indo, voltando foram no mínimo trinta. As pessoas na rua olhavam curiosas quando parávamos para descansar um pouco. Um casal de senhorinhos gargalhou quando nos viu passar tropicando em plena calçada. Mas, sim, conseguimos vencer a bendita subida que caracteriza a rua de casa. 

Valeu a pena tanto esforço, afinal, era um dia feliz. Nosso cantinho, antes vazio, ganhou um pouco mais de vida. Pude comer meu bolo de aniversário num lugar confortável. E, ao chegar, ainda nos deparamos com uma mensagem daquela mesma mulher que tanto demorava para nos responder uns dias atrás. 

Eu já fui estudante, já estive no lugar de vocês. Espero que aproveitem seu novo sofá

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Victoria Alejandra

victoriaalejandrapradopacheco@gmail.com
23.2
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Crochê, tricô e água benta

A pandemia já se encaminhava para o fim, o lockdown praticamente não existia, tudo havia voltado ao antigo normal, como se convencionou chamar nos telejornais, quando fui visitar meus avós. A casa estava do mesmo jeito de sempre, os vasos de plantas falsas no mesmo lugar, as fotos das netas quando crianças nos mesmos porta-retratos e a vasilha com balas de menta na mesinha de centro.  Tudo continuava igual, a não ser por uma sacola de papel com agulhas de tricô e linhas no canto da sala.

Perguntei à minha avó se ela havia começado a fazer tricô ou crochê, não fazia ideia da diferença. Ela me disse que crochetava há muito e deu uma leve resmungada ao notar meu desconhecimento sobre esse fato. Em minha defesa, devo dizer que ela nunca foi uma avó típica, do tipo que prepara almoços, bolos, costura ou demonstra muito afeto.  Eu, em resposta, retribuía com o mesmo comportamento. Seu jeito de nos cuidar  era oferecer um gole de água benta – benzida via novena do Divino Pai Eterno, às 10h, na TV – assim que nos sentávamos no sofá.  

Depois do meu gole tomado, ela retomou à minha pergunta e despertou para uma falação sem fim. “Na minha época de escola, as meninas tinham aulas de bordado, de etiqueta, crochê, tricô e tudo que uma mulher deveria saber fazer”. Ainda relembrou as aulas onde treinavam a postura, andando com livros sobre a cabeça. Talvez se eu tivesse essas aulas, não sofresse com escoliose. 

Olhei para as linhas coloridas mais um pouco e, tentando interromper o ciclo de histórias, tão antigas que até minha mãe duvidaria da veracidade, pedi quase em tom de apelo: Me ensina! Pela sua reação, creio que era tudo que ela estava esperando. Começamos pelo crochê – a técnica de uma só agulha pareceu a escolha ideal. Correntinha, ponto baixo, baixíssimo, alto, meio ponto alto e uma faixa totalmente irregular se formou. 

A didática de sala de aula com certeza se perdeu após anos longe do ofício de professora. O passo a passo que minha avó repetia sem parar me confundia tanto que desistimos. Passamos ao café com bolo, mas não sem antes ela me fazer prometer que levaria uma agulha e um novelo de lã para continuar os trabalhos em casa. Me comprometi a orgulhá-la como a neta prendada que sou, como ela mesma diz, já que as outras têm  pavor da cozinha e repulsa a trabalhos manuais.

Após alguns milhares de vídeos no YouTube, entendi como funcionava a mecânica dos pontos. Três horas completamente dedicadas ao crochê renderam o que poderia servir como uma mantinha para Barbies, se ainda brincasse com elas. Logo mais saiu uma touca minúscula, que talvez nem uma boneca pudesse usar. Tirei foto da criação, mandei para minha vó que, no mesmo instante, respondeu com elogios exagerados. 

Foi o incentivo que faltava. Nas semanas seguintes, comprei agulhas de diferentes numerações e lãs coloridas. Com uma receita para seguir e me mantendo fiel à promessa, em dois meses eu tinha um cardigan de quadradinhos. Um processo que minha avó acompanhou por meio de fotos e relatos por WhatsApp. Nossa troca de mensagens aumentou exponencialmente e os pequenos afetos se tornaram rotina da nossa relação. Quando o casaco, enfim, foi finalizado, levei-o para ela ver pessoalmente e tive certeza que ela não esperava tanta dedicação minha. Bom, o máximo que já fiz em crochê foram meias e polainas, ela me disse, após me oferecer um gole de água benta. Creio que foi um elogio.

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Isadora Camello

isadoram.camello@gmail.com
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