O semáforo da rua Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, demora quatro minutos e 17 segundos para abrir para os pedestres. Como eu sei disso? Cronometrei. Passei cinco dias tendo que esperar essa eternidade para conseguir me locomover na cidade. O tempo passa devagar demais quando a gente está parado e precisa ir para qualquer lugar. No dia cinco de novembro, o destino era a praia de Ipanema. Caminhei até a rua, já preparada para lidar com a frustração que este pequeno intervalo de 257 segundos causaria na minha vida.
De longe, vi o vermelho mudar para o verde. O eterno verde para os automóveis. Olhei tanto que, naquela hora, a cor deixou de ser a minha favorita. Ao lado de umas dez pessoas, comecei a esperar. A senhora ao meu lado estava falando no telefone com a filha, Luisa.
Você tem que dar um jeito nesse teu marido, Lu. Assim não dá. – entoava em voz alta, tornando impossível para quem estava perto não ouvir a fofoca.
A garotinha na minha frente devia ter uns 11 anos. Estava com o uniforme do Colégio de Aplicação da UFRJ, com fones de ouvido rosa e a música “Cruel Summer”, da Taylor Swift, tocando no celular. Ela era bem mais baixa do que eu, por isso consegui invadir a sua privacidade e observar a escolha sonora. Meus olhos estavam procurando qualquer coisa que me distraísse da realidade. Quatro minutos e 17 segundos. Pensei que a menina iria escutar a canção inteira e o sinal ainda estaria fechado. Quem sabe, até terminar outra, caso fosse essas produções novas, mais rápidas, feitas para bombar nas redes sociais.
Recebo uma mensagem de áudio. É o Dudu, repórter do Globo Esporte que trabalha comigo, em Florianópolis.
Ju, meu Deus, tu não vai acreditar. Acabei de te ver parada na sinaleira. Cheguei no Rio agora e tô indo de Uber para o hotel. Que coincidência absurda. – disse, surpreso.
Não é possível, pensei. De todos os lugares maravilhosos da cidade, no meio de quase sete milhões de pessoas, Eduardo me avistou na esquina da rua Pacheco Leão, onde o tempo estava congelado.
Se no início éramos dez, com o passar do tempo já tínhamos nos tornado 25, 30. A calçada era pequena para tanta gente. O fluxo de carros não diminuía e a angústia era palpável no ar.
Não empurra, porra. Não tá vendo que se eu for mais pra frente uma moto me pega? – gritou um homem, vestido com uma camiseta do Fluminense, número 16, com um enorme “VILMAR” nas costas.
A animação crescia dentro de mim. Faltava pouco. Dava para sentir. Do nada, surgiu um cheiro de queimado. Olhei para trás, uma correria dentro da padaria que beirava a rua. Algo tinha acontecido com o forno de assar os pães. Me aproximei do estabelecimento. Péssima ideia. Virei para a sinaleira. Vi a garotinha do fone rosa no meio da faixa de pedestres. Era a minha hora. Tentei passar pelas pessoas que tinham me acompanhado naquela eternidade. Quando coloquei o pé na rua, olhei para cima e vi o verde novamente.
Ele só fica sete segundos aberto. – ouvi uma voz. Me virei.
Como você sabe? – perguntei.
Eu cronometrei.

















