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Descascando batatas

Aconteceu num dia comum. Entre uma pausa e outra, abri o Floripa Mil Grau e dei de cara com um vídeo difícil de ignorar: pessoas em situação de rua sendo agredidas por policiais, em plena “Ilha da Magia”.

O vídeo já era revoltante. Mas os comentários o tornaram ainda pior. Reviraram o meu estômago. 

“Isso mesmo! Criminosos a gente tem que queimar vivo.”

Corri pro meu Instagram falso e comecei a responder. Um por um. Não sei se adiantou. Fiquei um pouco menos engasgada.

No dia seguinte, mais um vídeo. Mais uma pessoa em situação de rua apanhando, em Florianópolis. Viralizou.

Abri o fake de novo. O primeiro comentário dizia:

“Deveriam estar afastados da sociedade, em uma fazenda cheia de amor. Presos a uns 300 km daqui, pra aprenderem a se comportar que nem gente.”

Bloqueei o celular. Ainda não aprendi que é melhor não ler os comentários.

Era sábado. Dia de visitar minha mãe. Ia ter churrasco.

Tomei banho, me arrumei, apressei meu colega de apê. No mercado, compramos pão de alho e batata. Antes do caixa, pegamos flores pra ela.

Chegando lá, minha mãe está ocupada, ansiosa com a salada de batata, ou maionese, como chamam aqui no Sul. Vou ajudar. Noto que ela descasca as batatas de um jeito estranho, meio exagerado.

— Ô mãe, tu tira quase metade da batata quando descasca, né?

— Ah, filha, não sei fazer diferente. Aprendi com a tua avó e nunca mudei.

— Mas por que ela fazia assim?

— Acho que foi costume. Quando a gente morava na rua, comia resto de mercado. Ela cortava bem para tirar qualquer parte estragada.

— E tu tinha quantos anos?

— Uns cinco.

Ficamos em silêncio por um instante, mas logo voltamos à conversa. Fofocas, risadas, a lida na cozinha segue. As batatas ficaram prontas, nos sentamos. O almoço era simples, gostoso, cheio de barulho e cheiro bom.

Ao dar a primeira garfada, senti  um alívio. Era a melhor maionese que já tinha comido.
Por sorte, ainda tenho estômago.

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Vitórya Navegantes

vitorya.jornalismo@outlook.com
25.1
42

O melão

Entrei pela porta dianteira do ônibus, passei meu cartão, girei a catraca e
sentei em uma poltrona ao lado da janela. Os dias na ilha são tão quentes que
ardem a pele, e tem momentos que os passageiros chegam a ficar com febre. Sou preparada e levo um leque na bolsa para me abanar durante o trajeto inteiro.


Naquela manhã, sentou ao meu lado uma senhora de um metro e meio de altura,
cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, regata e calça legging até o
joelho. Ela me ofereceu um sorriso, coisa rara no transporte público. Percebi que reparou em mim, especificamente no meu leque, e certamente no meu estado,

suada e vermelha.

– Tá muito calor, né?

Faço que sim com a cabeça, o espaço abafado do ônibus me deixa com
preguiça de conversar.

– Sabe o que é bom pro calor?

Taí, a senhorinha bacana vai me passar um conhecimento milenar, desses
que se passa de vó para neta. Diga-me, então – penso – o que amenizaria o
sentimento inevitável do desespero frente ao aquecimento global.

– Melão! Sabia que o melão é a fruta da mulher?
Não, eu não sabia, nunca tinha ouvido falar.

– Eu comi muito melão quando era novinha, e, agora, minha temperatura tá
ambiente, não sinto calor!

Tento acreditar na senhora, espero que seja verdade. Ficamos em silêncio de
novo, mas ela não para de reparar em mim.

– Você é ansiosa?

Fico assustada no assento do ônibus, não sei porque me tornei tão
interessante pra ela. Lembrei que os passageiros também ouviam aquela conversa,
e não soube como responder. Mexi a cabeça sem jeito, ela entendeu como um sim.

– Quantos anos você tem? Deve ter uns vinte, né? Você é muito nova pra ter
ansiedade – fico ainda mais encabulada, ela acertou minha idade e ainda me
repreendeu.

– Sabe o que é bom pra ansiedade? Passar argila natural nas palmas das
mãos antes de dormir, e, às vezes, até nos pés.

Tenho agora as soluções dos dois maiores problemas do século XXI, a
ansiedade e o calor. Digo que estou surpresa, não sabia de tudo isso.

– É que eu gosto de ajudar as pessoas como posso, sabe? Eu gosto de
ensinar o que sei – agradeço e voltamos ao silêncio. Ela dorme na poltrona, mas
preciso acordá-la para ir embora. Ela me dá tchau, e diz pra eu lembrar do que ouvi.
Chego no trabalho e anoto na agenda: essa semana preciso fazer mercado.

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Iara Rocha

rochaiararegina@gmail.com
25.1
47

Quarta-feira, 20h30

“Esse time não presta pra nada, só me tira do sério!”, grito, em direção à TV.

Meu colega de apartamento vem correndo até a sala e pergunta o que está acontecendo.

 — Mais um jogo do Paysandu, né?
— Não sei por que tu ainda perde tempo com esse time, tu sempre te estressa.

O Paysandu perde mais um gol e fico ainda mais angustiada. Meus olhos continuam fixos na tela, mas minha mente escapa. Dissocio e volto no tempo. Recordo a primeira camisa que ganhei do time, aos cinco anos, e de como o falecido tio Zeca influenciou o meu pai a não torcer pelo rival. Lembro do primeiro jogo que fui, e do som da torcida me fazendo vibrar como os vidros da minha casa, tremendo ao lado do estádio em dia de clássico.

Nos minutos finais, quando a esperança parecia enterrada, meus pais me puxavam num abraço apertado, enquanto víamos o Paysandu virar o jogo no apagar das luzes. 

Minha mãe sempre gritava “Papão!” quando os fogos de artifício explodiam no céu, em comemoração.

Eu e meu pai estávamos no aeroporto de Belém. Depois do último abraço que daríamos em anos, ele me entregou uma sacola preta e pediu para abri-la só no avião. Meu coração não aguentava de ansiedade e, após afivelar o cinto, abri o pacote.

Era uma camisa do Paysandu.

Silêncio na sala. A TV segue gritando gols do adversário.

— Ai, Roberto, eu gosto de me estressar mesmo. Paciência. Tem coisa que a gente ama, mesmo quando dói.

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Vitórya Navegantes

vitorya.jornalismo@outlook.com
25.1
46

Indesejada

Era um sábado à noite. Eu tinha decidido não sair naquele dia, estava sem dinheiro e queria aproveitar para ficar sozinha depois de muito tempo. Ver um filme, comer pipoca e tomar um chocolate quente aproveitando a chuva, mesmo com o termômetro não baixando menos de 20ºC.

Mas ela não bateu na porta. Não mandou nenhuma mensagem. Ou, como sempre, nem avisou que chegaria. Mas quando achei que passaria uma noite sozinha, me vi acompanhada por alguém – ou algo – incômodo.

Eu já devia estar acostumada com a sua presença, ela tem sido a minha companhia nos últimos dias. Já apareceu em diferentes momentos, chegou em uma piada, quando, andando na rua, vi um restaurante novo que queria provar, e até mesmo em uma fofoca, que quis compartilhar, ou um vídeo nas redes sociais que queria enviar.

Naquela noite, acho que foi o perfume na almofada do meu sofá. Ou minha comida conforto talvez a tenha convidado. Ou o filme que escolhi. Nunca saberei. Até porque o convite não tinha sido feito por mim. Mas ela chegou como quem mora ali, mesmo quando achei que já tínhamos terminado. Antes era alguém que era comum estar por perto, hoje era uma visita indesejada.

Ela ficou ali comigo, enquanto o filme rodava e a pipoca esfriava. Em algum momento, percebi que não estava mais lutando contra sua presença. Deixei que se sentasse ao meu lado. A verdade é que talvez eu fosse meio ridícula por sentir tanto por alguém que já nem faz parte do meu roteiro, e, ainda assim, estar presa em cenas que repito mentalmente como se pudesse mudar o final.

Na tela, a protagonista também encarava o fim. Chorava, ria, tropeçava nas próprias memórias e, no final, encontrava algo dela mesma no meio do caos. Me vi ali, sozinha e acompanhada, um clichê ambulante de comédia romântica. Em algum momento, me peguei rindo sozinha. Era bobo, eu sei. Mas acho que esse é o primeiro passo: rir. Mesmo que seja do próprio drama.

Talvez a saudade seja isso: um lembrete cruel de que algo foi especial. Talvez a saudade não vá embora hoje. Nem amanhã. Mas, ao menos agora, quando ela bater na porta, ou entrar sem ser convidada, eu já não vou estranhar. Só vou deixar que fique o tempo que precisar.

Apaguei a luz, guardei a xícara, fui dormir. A visita ainda estava por perto. Mas, pela primeira vez, não me senti mal por isso.

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Amanda Kovalczykovski

amanda.kovalczykovski@gmail.com
25.1
40

Tempo

O caminho entre a Praia da Armação e o centro de Florianópolis nunca havia sido tão longo. 

Buzinas, pneus arrancando, murmurinho: eu conseguia ouvir muita coisa, mas só o que eu enxergava era o teto branco da ambulância. 

Fechei os olhos. Quando os abri, estava entre as paredes do Hospital Governador Celso Ramos, em uma maca no corredor. Junto a mim, outros vários como eu. 

Na minha frente, um menino vestido todo de branco: camisa branca, calça branca e botas brancas. A única coisa que destoava era a faixa tingida de vermelho que estancava uma amputação no braço direito. O que me chamou atenção, no entanto, era o que ele segurava. Em sua mão esquerda havia um celular. Nele, o garoto assistia vídeos de outros garotos, tão jovens quanto ele, andando de skate. Interrompido por uma enfermeira, foi levado para fazer exames. Nesse momento, as paredes conversaram alto e eu, esperando por atendimento, prestei atenção. Seu nome era Miguel. Miguel tinha 17 anos e trabalhava num açougue com o pai. 

Para ocupar o lugar dele no corredor, entrou outro homem, de vinte e poucos anos. Seu cabelo estava, em partes, raspado e seu rosto carregava hematomas. Nessa hora, me faltavam forças até para chorar – a dor insistia em me lembrar do porquê de eu estar onde estava.

Calma, moça – ele me consolou. Eu quase morri. Eles me deixaram vivo porque quiseram. Eu poderia estar morto agora. 

Obrigada – agradeci, com a voz embargada.

Miguel, então, voltou ao cômodo abarrotado de gente, à espera de um leito. Entra turno, sai turno e minhas roupas molhadas já haviam secado.

Vamos te colocar na cadeira de rodas para facilitar a locomoção – me avisou uma enfermeira.

Vai ser agora! – pensei, tentando me conformar.

Então fomos, desviando de gente deitada com semblantes entristecidos, que me faziam questionar qual era o preço da dignidade. 

Agora você vai esperar aqui. Tem algum familiar lá fora?

Balancei a cabeça, para avisar que sim, me referindo aos meus pais, que aguardavam em frente ao hospital desde que cheguei.

Mais espera. Aquilo, definitivamente, não era o que eu queria ouvir. 

Assim, os minutos se converteram em horas, as horas pareciam semanas… E lá estava eu, ainda, entre o barulho das sirenes. 

Mais rostos, mais histórias. Histórias essas que, naquela altura, quem podia contar, contava. Quem não podia…

Moça – parei uma enfermeira no corredor. Falta muito? Eu já estou aqui há cinco horas sem atendimento. Eu nem pude ir ao banheiro por conta do meu acidente.

Tem mais quatro pacientes na sua frente, que estão aqui desde a manhã. 

Alcança a comadre para ela – disse outra enfermeira, vestida de azul, que passava por ali. 

Eu não vou conseguir fazer xixi na frente de todas essas pessoas – avisei.

Meu pai, então, foi, finalmente, liberado para entrar. Veio até mim com um olhar incrédulo, se agachou e me ajudou a suspender a perna, que eu mal conseguia mexer. Com um lençol branco sobre meu corpo machucado, esperamos os dois, ao lado da sala de sutura. 

Enquanto isso, uma mulher de meia idade, que parecia ansiosa, nos mostrou seu celular. Era uma foto de seu irmão. 

Ele tá aberto assim desde de manhã. Deve ter uns 20 centímetros esse corte. E tá sendo atendido só agora. Caiu andando de moto e me chamou porque não tem esposa – desabafou ela.

Logo, aquele homem saiu por aquela porta que eu tanto ansiava entrar. Socorrido. Suturado. Medicado. O tempo de espera dele havia acabado.

Então, ouvi meu nome.

Mariana? Sua vez – disse um médico, que parecia tão jovem quanto eu.

Então fui. Entrei na sala. Era minha hora. Socorrida. Suturada. Medicada. E, pela primeira vez, algo ali tinha passado rápido. Saí, cruzei a fachada daquele hospital e, honestamente, me senti livre. 

Pude ir para casa e deitar em uma cama decente. Sozinha. Em silêncio. No entanto, que inocência a minha achar que aquele terror me deixaria livre tão cedo. Hoje, exatos dois meses depois, não há uma noite sequer que eu não pense em Miguel e em todos aqueles que ficaram.

Esperando.

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Mariana Franco

rosafrancomari@gmail.com
23.2
39

Sinal de vida

Mãe: Bom dia, filha querida. Deus te abençoe. 

Conferi minhas notificações e deixei o celular de lado. Precisava me arrumar para a aula, às pressas. Não voltei a olhar para a tela nesse meio tempo. Vivo correndo e as pequenas pausas que dou são dedicadas a pequenos prazeres: um café, Tiktok, um tempo no Instagram. 

Mãe: Eii, psiu. Cadê você? 

No momento estava no meio do estágio. Peguei o celular para responder, mas me distraí com algum pedido do meu chefe. Não vi o tempo passar e cheguei em casa cansada, sem cabeça para conferir o celular. Pedi um cachorro-quente por delivery, fiz minhas tarefas, jantei e dormi — nessa ordem. 

No dia seguinte, repeti a rotina. Me lembrei da mensagem depois do almoço e vi que tinha uma nova me esperando, junto com uma ligação. Ah, ela podia estar preocupada. Eu precisava entrar no ônibus, então mandei uma resposta rápida.

Eu: Ontem foi uma correria, desculpa a demora. Te amo.

Assim segui meus dias. Em meio à pressa, vez ou outra me esquecia de enviar um sinal de vida – sentia cansaço – me lembrava – mandava uma mensagem – ia para a faculdade – ia para o estágio – fazia uma ligação de vídeo – resetava o ciclo. Até que certa manhã a mensagem de ‘bom dia’ não veio. 

Quando me dei conta, parei de mexer no computador e peguei o celular. Abri a conversa e verifiquei que nossa última interação foi às nove da manhã do dia anterior. Fazia mais de 24 horas. Mandei uma mensagem. 

Eu: Oi mãe, bom dia! Tudo bem com a senhora?

Apenas um tracinho apareceu na tela. Esperei pelo segundo, mas ele não veio. Por que ela estaria sem internet? Será que desligou o celular? Será que roubaram o celular dela?

Abri os contatos e procurei o seu número na lista de salvos. Ela só precisava de rede para receber ligações, então poderia atender, certo? Se estivesse bem, iria me atender. Ouvi o bipe da chamada. Uma, duas, três, quatro vezes. Na oitava já estava roendo a unha do dedão. Onde se meteu essa mulher? 

Respirei fundo, me obrigando a organizar os pensamentos. Meu chefe estava na sala, então ponderei enquanto fingia que lia algo no computador com muita atenção. Minha mãe não tinha motivos para não me dar bom dia em uma manhã comum. Não era feriado e nem aniversário de ninguém da família e, que eu soubesse, não tinha nenhum evento que ocupasse o seu tempo a ponto de ela não ter um espaço para me mandar um sinal de vida. 

Decidi ligar de novo, mas a nova tentativa também foi mal sucedida. Era hora de apelar para minhas armas mais fortes. Mandei mensagem para minhas tias. Não falava com elas havia mais de um mês, mas era uma emergência, então poupei palavras.

Eu: Oi tia, bom dia! Tudo bem? Sabe onde está minha mãe? Ela não está respondendo e não atende o telefone. 

Tia: Oi querida, não sei não. Vou tentar falar com ela e te aviso. 

Agora precisava esperar, mas esperar era uma tortura. As horas passavam e não conseguia me concentrar por muito tempo no trabalho. Saí do estágio com a produtividade baixa de um dia ruim e tive o mesmo desempenho na faculdade. Ao final da tarde, já havia incomodado metade da minha família, mas ninguém sabia o paradeiro de minha mãe. 

Por fim, acionei meu irmão. Deixei ele por último porque reconhecia que era pior que eu: às vezes, demorava cinco dias para responder um ‘bom dia’. Era tão ruim que minha mãe me fez prometer, antes de me mudar de cidade, que nunca seria como ele. Até então estava conseguindo cumprir minha promessa, meus sumiços nunca duravam mais de quarenta e oito horas. 

Eu: Oi maninho, falou com a mãe hoje? 

Enviei a primeira mensagem sabendo que a resposta seria negativa. Quando ele confirmou minhas suspeitas, contei:

Eu: Ela não responde e nem atende ligações o dia inteiro. 

E foi o suficiente para fazê-lo ficar tão preocupado quanto eu.  Começou querendo perguntar se minhas tias tinham notícias, mas avisei que já havia tentado e não deu em nada. Ligou e não foi atendido. Mandou mensagem para minha avó, que o respondeu com um ‘não’ e uma foto de uma oração. Passou por toda a procissão que eu passei até acabar no mesmo ponto torturante: a espera. 

Quando cheguei em casa, perto das sete da noite, já estava considerando acionar a polícia. O que uma senhora de 54 anos pode estar fazendo sem internet o dia inteiro? Só imaginava um sequestro, um derrame ou coisa até pior. Fiquei insone com meu pessimismo — o caminho que minha mente sempre segue quando a deixo livre —, e senti raiva de mim por não conseguir ser mais tranquila e relaxada. Mas não há o que fazer, é só ler meu histórico de crônicas para notar minha inclinação para tragédias. 

De repente, mais ou menos às dez da noite, recebi uma notificação. 

Mãe: Oi filha linda, boa noite, Deus te abençoe. 

O alívio da mensagem se misturou com a raiva. Respondi com as mil perguntas que rondaram minha cabeça durante o dia. Onde ela esteve? Por que não tinha internet? Por que não me avisou antes?

Mãe: Eu fui na praia e a bateria do meu celular acabou, voltei agorinha. 

Simples assim. Um dia de buscas reduzido a uma explicação de uma linha. Pedi para que ela nunca mais sumisse e fui dormir. 

No dia seguinte, acordei com a mensagem usual de bom dia. Respondi no mesmo instante.

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Juliana Carvalho

julianacarvalhojc251@gmail.com
23.2
38

Sequestro relâmpago

Em uma noite de sexta-feira, após ter jantado no RU, pretendia voltar para casa para colocar os trabalhos em dia quando fui atacado por dois sequestradores. Fui forçado a sentar-me no bar mais próximo de casa e pegar o copo que me foi oferecido. Disse a mim mesmo que seria rápido, apenas o necessário para não desagradá-los, pois não tinha como saber se me machucariam caso recusasse. Se fingiam amigáveis, me levando a questionar se, talvez, não seriam pessoas ruins. Repreendi o pensamento e, enquanto pediam outra garrafa, planejei fugir. Por azar, o atendente marcou o pedido em minha comanda – agora, seria obrigado a pagá-la e, portanto, bebê-la. 

Estava procurando tomar o controle da situação, quando um comparsa dos sequestradores surgiu. Um advogado. Como uma técnica de coerção, pagou para todos nós uma porção de pastéis, me obrigando a ficar mais, afinal, comida de graça não se nega. Por sorte, a operação criminosa não parecia tão bem planejada e o recém-chegado, já bêbado, fazia da mesa do bar um tribunal, defendendo um caso aleatório sem ninguém para debater de volta, exibindo todo seu juridiquês e incomodando os donos do estabelecimento. Possivelmente os criminosos tivessem se arrependido de envolvê-lo, pareciam incomodados e discutiam uma forma de se livrarem dele, dando-me uma chance de fugir enquanto estavam distraídos. 

Foi quando o estudante de direito inquieto fez outra vítima, um homem perdido e confuso que percebi ser mexicano. Abortei minha fuga e fui ao seu resgate, jamais poderia permitir que outra pessoa sofresse o mesmo destino trágico que o meu. Em nossa conversa furtiva revelou-me ser um turista em viagem pelo Brasil, estava convencido de que o povo do Sul não era tão receptivo quanto os cariocas ou paulistas. Um senso de bairrismo me tomou. Meu orgulho não deixaria minha terra ser mal vista, mesmo eu não sendo exatamente daqui e na realidade nem gostando tanto assim do estado. Decidi ser seu herói não requisitado, protegendo-o dos males desses sequestradores. Não o deixaria vir até aqui para ser feito refém, podemos até não ser receptivos, mas orgulhosos, com certeza! 

Cheguei a pensar se não seria uma armadilha, talvez o estranho turista fosse um infiltrado. Afinal, sempre que via o atendente, encomendava mais uma rodada. Olhei as horas pela primeira vez em muito tempo, já passava da meia-noite e havia uma quantidade comicamente grande de garrafas cheias na mesa. Seria esse o plano deles? Me fazer perder os sentidos enquanto o valor do resgate, marcado em nossas comandas, crescia? 

Quando mais um comparsa do grupo surgiu – um suposto morador de rua – percebi que já havia passado dos limites, era hora de fugir! Corri o mais rápido possível para o caixa com a intenção de pagar os 10 reais marcados ali e evitar ser cobrado pelo que não pedi, apenas consumi. Com os olhos na maquininha, fui cercado pelo grupo criminoso mais uma vez, tendo que lutar pela minha liberdade. 

Até que tudo escureceu. 

Despertei em casa, sem saber para onde todos tinham ido. Sumiram tão prontamente quanto surgiram, provavelmente fugindo da polícia. Não me lembrava de como havia escapado, sequer lembrava se o dinheiro do resgate fora pago. Chequei meu extrato, antecipando estar zerado. Para minha surpresa, nem um único centavo havia sumido, nem mesmo o valor de minha comanda. Lembrava-me vividamente de ter acertado a conta com o atendente e dele confirmar que não faltou nada. Teria sido tudo um sonho? Foi então que recebi uma mensagem pelo WhatsApp de um turista mexicano que não me lembrava bem como conheci. 

– Bar hoje? 

Entendi os sinais do universo. Naquela noite, após cumprir um juramento de responsabilidade acadêmica durante a tarde, deixe-me ser sequestrado novamente.

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Natan Balthazar

natanbalthazar@gmail.com
23.2
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Quem tem medo da polícia?

No dia em que pensei em escrever uma crônica sobre ser preto em uma sociedade racista, aconteceu. Senti medo de morrer por causa da minha cor. Pra ser sincero, acontece sempre. Era 11 de agosto de 2023, uma sexta-feira. Tive minha primeira aula de Texto V nesse dia. Saí do trabalho às 19h e estava indo encontrar dois amigos em um barzinho da Avenida Hercilio Luz. É meu “sextou” preferido. 

O camburão da PM estava parado a algumas ruas do meu trabalho. Dois policiais, para dobrar o meu medo. Lembro que minhas mãos suaram e meus olhos desnortearam. Contato visual nunca é uma opção. Atravessei para o outro lado da rua e a cada passo tentava tranquilizar a mim mesmo.

Calma, Carlos. Você está bem vestido. Está voltando do trabalho.

Isso é ilusão, eu sei. Um preto pode estar de terno, ser bem sucedido e mesmo assim estará fadado ao medo, à truculência da polícia. Talvez até a alguns tiros de advertência por existir.

 O camburão cruzou por mim depois que atravessei a rua. Foi para a via de cima, como quem rodeia sua presa. É uma sensação de insignificância. Parece que serei mais um “caso isolado” a qualquer momento.

Cresci em uma vila simples, em São José (SC). A polícia batia direto na frente da casa do Vando, meu quase vizinho. Era o point, se é que me faço entender. Eu conseguia ver tudo, pois o lugar onde eu morava fica em uma subidinha com vista privilegiada para a esquina. Precisava passar pela casa dele para ter acesso à rua principal. Toda vez pedia a Deus para não trombar com a polícia e ser “confundido”. Sim, esse texto faz mais sentido com aspas. 

Tive a “sorte” de ser enquadrado apenas duas vezes em 23 anos. Algo me protege. Com meus dois amigos de infância e vizinhos não foi a mesma coisa. Eles são irmãos e tomavam enquadros seguidos, com xingamentos e agressões. Nunca se envolveram em nada ilícito. Seu crime é terem a pele escura.

Desde quando entendi o que minha cor significa em uma sociedade racista, lá pelos meus 16 anos, comecei a sentir receio de lugares e de pessoas brancas. No dia 11 de agosto, eu cheguei no bar. Me enchi de cerveja e de risadas pra fingir que estava bem. Temo não conseguir chegar a tempo algum dia – no bar, em casa ou num destino seguro qualquer.

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Carlos Venâncio

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Quatro minutos e 17 segundos

O semáforo da rua Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, demora quatro minutos e 17 segundos para abrir para os pedestres. Como eu sei disso? Cronometrei. Passei cinco dias tendo que esperar essa eternidade para conseguir me locomover na cidade. O tempo passa devagar demais quando a gente está parado e precisa ir para qualquer lugar. No dia cinco de novembro, o destino era a praia de Ipanema. Caminhei até a rua, já preparada para lidar com a frustração que este pequeno intervalo de 257 segundos causaria na minha vida.  

De longe, vi o vermelho mudar para o verde. O eterno verde para os automóveis. Olhei tanto que, naquela hora, a cor deixou de ser a minha favorita. Ao lado de umas dez pessoas, comecei a esperar. A senhora ao meu lado estava falando no telefone com a filha, Luisa.

Você tem que dar um jeito nesse teu marido, Lu. Assim não dá. – entoava em voz alta, tornando impossível para quem estava perto não ouvir a fofoca.

A garotinha na minha frente devia ter uns 11 anos. Estava com o uniforme do Colégio de Aplicação da UFRJ, com fones de ouvido rosa e a música “Cruel Summer”, da Taylor Swift, tocando no celular. Ela era bem mais baixa do que eu, por isso consegui invadir a sua privacidade e observar a escolha sonora. Meus olhos estavam procurando qualquer coisa que me distraísse da realidade. Quatro minutos e 17 segundos. Pensei que a menina iria escutar a canção inteira e o sinal ainda estaria fechado. Quem sabe, até terminar outra, caso fosse essas produções novas, mais rápidas, feitas para bombar nas redes sociais.

Recebo uma mensagem de áudio. É o Dudu, repórter do Globo Esporte que trabalha comigo, em Florianópolis. 

Ju, meu Deus, tu não vai acreditar. Acabei de te ver parada na sinaleira. Cheguei no Rio agora e tô indo de Uber para o hotel. Que coincidência absurda. – disse, surpreso. 

Não é possível, pensei. De todos os lugares maravilhosos da cidade, no meio de quase sete milhões de pessoas, Eduardo me avistou na esquina da rua Pacheco Leão, onde o tempo estava congelado. 

Se no início éramos dez, com o passar do tempo já tínhamos nos tornado 25, 30. A calçada era pequena para tanta gente. O fluxo de carros não diminuía e a angústia era palpável no ar. 

Não empurra, porra. Não tá vendo que se eu for mais pra frente uma moto me pega? – gritou um homem, vestido com uma camiseta do Fluminense, número 16, com um enorme “VILMAR” nas costas.

A animação crescia dentro de mim. Faltava pouco. Dava para sentir. Do nada, surgiu um cheiro de queimado. Olhei para trás, uma correria dentro da padaria que beirava a rua.  Algo tinha acontecido com o forno de assar os pães. Me aproximei do estabelecimento. Péssima ideia. Virei para a sinaleira. Vi a garotinha do fone rosa no meio da faixa de pedestres. Era a minha hora. Tentei passar pelas pessoas que tinham me acompanhado naquela eternidade. Quando coloquei o pé na rua, olhei para cima e vi o verde novamente.

Ele só fica sete segundos aberto. – ouvi uma voz. Me virei. 

Como você sabe? – perguntei. 

Eu cronometrei.

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Júlia Duvoisin

juliaduvoisin1803@gmail.com
23.2
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Parquinho

— Juliana Carvalho — a coordenadora da escola chamou — Sua mãe está te esperando na secretaria.

Um nó se formou na minha garganta. Não deveria ser surpresa nenhuma, minha bisavó estava inconsciente havia duas semanas. Foram quatorze dias sem nenhuma notícia de melhora. Aos 18 anos, já sabia que a próxima atualização do seu quadro tinha grandes chances de ser ruim. Ainda assim, chorei. 

Passamos em casa para vestir roupas pretas. Seguimos a viagem até o cemitério da cidade vizinha em silêncio. Meus pensamentos me levavam de volta às lágrimas vez ou outra, até retornarem às memórias de anos atrás, parando em um parquinho colorido no canto de um cemitério. 

O encontrei no primeiro velório que compareci, aos cinco anos. Ver tantos adultos chorando juntos foi um choque, porque, na época, adultos não sucumbiam à emoções como crianças da minha idade. Mas lá estava um bando deles, chorando de soluçar. 

Demorou para que eu fosse capaz de entender o que era aquela reunião de pessoas vestidas de preto. O clima triste pesava no ambiente. Me mantive quieta, seguindo  meu papel na procissão mórbida. Até ver o parquinho. 

Em meio à monocromia da tarde, o espaço no canto do cemitério parecia brilhar em cores. Enquanto os adultos seguiram seu caminho para enterrar o caixão, eu e outras crianças aproveitamos para fugir do peso daquele ritual. Brincamos até o fim da cerimônia. Quando todos estavam deixando o local, minha mãe me buscou e mostrou onde colocaram sua amiga. Não consegui acreditar. Para mim, era só um pedaço de terra batida com uma pedra lapidada em cima. Não dava para ver nem um pouco da mulher alegre que me maquiava, me deixava vestir suas roupas e brincar com as perucas que usava por conta da quimioterapia. 

Voltei a olhar para o parquinho. Pedi à minha mãe para que me deixasse brincar mais um pouco, mas já estava na hora de ir embora. 

Anos depois, enterrei meu bisavô. Algum tempo mais tarde, aos onze anos, foi o meu pai. Todas as vezes, realizei o mesmo ritual: vestia roupas pretas, aceitava palavras de pesar, evitava encarar a morte dentro de um casulo de madeira, deixava que o fechassem e esquecessem debaixo de um punhado de terra —, mas não chorava. Essa parte do ritual eu não cumpria. 

Dessa vez, no entanto, algo estava diferente. Não parei para procurar um rosto amigo que pudesse aliviar o peso do ambiente. Não tive medo de encarar a minha bisavó, sabendo que nunca mais teria oportunidade de vê-la. Não evitei as lágrimas e nem o carinho que me ofereciam. Pela primeira vez, ofereci o meu também. 

— Odeio isso — disse, mais tarde, para minha mãe. — Quero ser cremada. 

Notei que para odiar algo é preciso entender um pouco sobre aquilo, mas não desejo esse entendimento para ninguém. Se pudesse, nunca mais iria a nenhum velório, nem ao meu próprio. Mas, ah, sei que irei de novo, algum dia. 

E não haverá outro parquinho esperando por mim.

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Juliana Carvalho

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